Tribuna do Leitor

O Dedé foi um cara precoce

Carlos Alberto Abrantes (Lemão)
| Tempo de leitura: 2 min

Na vida e na morte. Vivi ao lado dele, quase que diariamente uma boa quadra da minha vida juvenil. Ele era um Ícone.

Claro, do seu jeito! Jamais concordamos com algo, nunca. O achava teimoso.

Jovem e precoce empreendedor, ele sempre tinha "problemas" sérios para solucionar na sua fábrica de doces, a Dudé: aluguel, utilities; funcionários; fluxo de caixa; contas a pagar e a receber, eram somente alguns. Na condução dos negócios de sua empresa até de chapa ele me alocou, quantos caminhões de pipoca o ajudei a descarregar, afinal o pingado e o pão na chapa na sua companhia pelas estradas ouvindo música no TKR cara preta do Mercedinho 608 se transformava numa refeição maravilhosa.

Enquanto isso, o maior desafio da maioria dos amigos com quem ele convivia era, no máximo, tirar boas notas na faculdade. Nós éramos quebrados e ele rico, afinal até talão de cheques de várias contas correntes ele tinha. Se dizia "um cara de visão". Precoce e atrasado. Eis aí nossa única divergência. Sempre o estávamos aguardando. E ralhava quando repreendido. Atrasado e teimoso.

Um dia, após atrasos mil, na saída da minha despedida de solteiro, largamos ele para trás. Yes, um paradigma havia sido quebrado no nosso bando. Rumo a São Paulo, passando por Agudos, na pista contrária lá estava o Dedé, completamente atrasado em seu bólido caminhão. Desta vez ele ficaria para trás.

Vou contar outra história engraçada. Quem viveu, se alegrará com ela. Vez ou outra ele tentava explicar os "problemas" que o afligiam quando lhe perguntavam se ele estava bem, fruto da sua seriedade no trato das coisas, mas isso também ocorria em locais impróprios: alta madrugada, todo mundo sob o efeito do álcool, no congestionamento da escada da boate Camarim ouvimos uma voz forte lhe responder, "problema? Ma que problema Bebé?"

Também era um apaixonado. Sentado ao seu lado na carteira da Escola Mercedão ele escrevia cartas e cartas de amor. Algumas me permitiu a leitura. Derreteu corações, sempre do seu jeito, o jeito Dedé de ser. Lá vem ele na sua GM/Marajó azul, virando a esquina. Teve também o tempo das motos. Carangas e motocas.

O admirava! Um dia, cada um constituiu sua própria família e os encontros da turma foram rareando, ficaram as boas lembranças. E o nosso Dedé (André Luiz Watanabe Moreno) lamentavelmente adoeceu gravemente. Jamais ele seria o mesmo, muito triste, não tinha mais seu jeito nesse novo Dedé. Hoje ele se foi, mas na minha memória apenas boas lembranças.

Estou aqui a ouvir as músicas que gostávamos, assistimos juntos ao filme 'Ruas de Fogo' umas 7 vezes. Resolvei escrever esse texto, li num dos livros do Cortella que escrever acalma. Jamais seria um escrito de luto, tinha de ser algo com a lembrança que tenho do Dedé, do seu jeito.

Que Deus o tenha Dedé e conforte familiares e amigos.

Comentários

Comentários