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Uso de apps 'salva' idoso da solidão

Giovanna Wolf
| Tempo de leitura: 3 min

Durante a pandemia, Catarina Evangelista, 76 anos, recorreu a duas paixões. Uma delas é companheira de longa data: suas peças de bordado. Já a outra é um amor recente: o smartphone. "Se não fossem eles, tinha ficado louca." É pelo WhatsApp que a moradora de Jundiaí (SP) conversa com sua família de Minas Gerais - algumas vezes em chamada de vídeo - e mantém contato com seus 25 netos. "A família é grande e está todo mundo no 'zap'", conta ela, que também está no Facebook.

Assim como aconteceu com ela, muitos idosos enxergaram nos apps - e na Internet - boas companhias durante o período de distanciamento social. Os usos, porém, não se limitam mais a trocas de mensagens no 'zap'. Segundo a pesquisa Painel TIC Covid-19, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 89% dos usuários de internet acima de 60 anos conversaram por chamada de voz ou vídeo durante a pandemia. Outros 84% usaram redes sociais

Houve também um salto no uso de serviços financeiros: 77% das pessoas dessa faixa etária com acesso à internet fizeram consultas, pagamentos ou outras transações financeiras pela internet - em 2019, esse número era de 40%.

Nos últimos meses, usar ferramentas digitais tornou-se uma questão de sobrevivência, dizem especialistas. "A solidão tem um peso maior na vida dos longevos. Passou a ser essencial trabalhar o isolamento de forma remota - além de continuar em atividade de alguma forma", diz o arquiteto e urbanista Jorge Costa, professor da Universidade Aberta da Terceira Idade da UERJ e membro da Sociedade Brasileira de Gerontecnologia. "A educação digital focada no idoso está mostrando cada vez mais sua importância."

Catarina Evangelista aprendeu a mexer no smartphone com a ajuda dos filhos. Já Maria da Conceição Firmino, 73 anos, que aprendeu de vez a usar apps de bancos - agora, é por lá que paga todas as contas -, preferiu não depender de ninguém. Antes da pandemia, fazia curso presencial de informática. Mas desde abril ela passou semanalmente a ter aulas online sobre tecnologia pelo Zoom.

O professor de Maria da Conceição é o pedagogo Ricardo Temóteo, que há 23 anos trabalha ensinando ferramentas digitais - desde a época em que as pessoas aprendiam a usar disquetes. Ele desenvolveu um método próprio para ensinar o idoso. "As pessoas idosas são muito heterogêneas. Tem o idoso empresário, a dona de casa, o religioso... Tem também o idoso ativo e o fragilizado. Antes de começar a ensinar, sempre procuro pensar: qual é o perfil?"

Para montar o curso, o professor se preocupa em usar uma linguagem didática, além de entender os interesses e as motivações. "Uma das maiores dificuldades é a ansiedade de aprender rápido. O mais importante é acreditar que é capaz de aprender", diz Temóteo.

Na visão de Renato Giacomini, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da FEI, a tendência é que as tecnologias sejam cada vez mais acessíveis para idosos. "Tem ficado clara a importância da facilidade do uso de ferramentas digitais. Quanto mais evoluírem, mais intuitivas elas ficarão", afirma Giacomini.

O maior desafio à frente, segundo especialistas, é a frequência das mudanças e atualizações. Botões diferentes e novas funcionalidades podem atrapalhar a assimilação, comenta Jorge Costa, da UERJ. Mas, para Maria da Conceição, é possível lidar com isso. "Se a gente aprender passo a passo, dá certo. É como se fosse uma receita de bolo", diz.

 

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