Articulistas

Dia de domingo

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Domingo, 24 de agosto de 1954. Um tiro contra o peito abrevia o homem que sai da vida para entrar pra história. Domingo, 21 de abril de 1985. Um país, sob 21 anos de ditadura militar, despede-se do primeiro presidente civil. Primeiro de maio, 1994, Ímola, Itália. Rompimento da barra de direção faz com que o carro do tricampeão mundial de Fórmula I perca o controle, colidindo contra o muro a mais de 200 quilômetros por hora. Treze de junho de 2001. Um homem primata disfarçado de motoqueiro interrompe o trajeto matinal do músico dos Titãs. Cedo ou tarde demais pra dizer adeus, pra dizer jamais, os dias parecem cumprir um ritual. Tecem a mensagem do desânimo. Cada vez mais, o narcotráfico recruta crianças. Brasil é referência mundial negativa na vacinação pela Covid-19. O número de mortes diárias é substantivo concreto. A revolta, abstrata. O caos, a quarentena conjugam-se no indicativo. A esperança, sentada no subjuntivo.

Enquanto isso, os dias passam lentos como brasa de carvão apagada pela chuva fina de um fim de domingo. Sim, novamente o domingo. A semana nos convoca. Na labuta pelo pão, o fogo, o ferro. Severinos e Marias transpiramos a sina e os nossos iguais. E porque é domingo, há de se renovar a fé gasta pela lâmina cortante do que diariamente nos consome. Os dias - afiadíssimos - aguardam-nos com satisfação gorda de cozinheira. E porque é domingo, uma procissão de memórias desavisadas nos visita. O beijo, a saliva. Ela, a beleza em dízima infinita, meneando as tranças pretas, abrindo biquinha de mel dos olhos pra mim. A tarde café com canela do sol das seis e quarenta e sete da rua morna da igreja.

O domingo desmantela o sossego dos calendários. Inquieta a regularidade nervosa do quinta dia útil. Frustra o feriado ocasional. Desobedece a dietas. O domingo, quando poético, bebe as lágrimas dos olhos cheios d'água. Desespera a espera, soluça como diafragma de uma criança. É enlace, reconhecimento de amor sem rugas que por navegarem sempre juntos, sulcaram mapas da face. Domingo de Páscoa bem queria sonho de valsa. Domingo bebe a loira que promete a morena. Domingo é descalço, deita preguiças, boceja linhagens do tempo. Domingo é imaginação, é desenhar garças que pousam num manacá florido. Pega-pega, betes, bolinha de gude, esconde-esconde, ludo, dama, quebra-cabeça. Caso pudesse ordenar tudo isso, as lembranças de um dia de domingo estariam atrás e fora do portão com chave e cadeado da Bela Vista. O domingo é xereta. Vive à procura do que bulir, uma vez que as flores- assustadas pelo medo coletivo - refugiaram-se nos vestidos de algumas mulheres ditas da vida, a fim de se preservarem em bons colos de peitos bem feitos.

O domingo é clichê em feira, futebol, macarrão, churrasco e feijoada. E o domingo sendo sagrado, desejarei que a segunda-feira nasça em castidade.

O autor é professor, escreve artigos didáticos

Comentários

Comentários