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Quarentena gera fadiga pandêmica e consequências podem ser graves

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Os impactos trazidos pelo novo coronavírus criaram uma "bomba relógio" na saúde mental das pessoas. As mudanças drásticas decorrentes da quarentena somadas ao clima de tensão com vidas perdidas todos os dias e a grave crise econômica geraram uma nova condição. A fadiga pandêmica foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o órgão estima que 60% da população mundial já estava afetada por ela no final do ano passado. Especialistas alertam para a importância de identificar os sinais e pedir ajuda profissional o mais rápido possível, afinal, o esgotamento em lidar com as consequências da Covid-19 no dia a dia pode evoluir a doenças mentais graves e acarretar até prejuízos fisiológicos.

A fadiga pandêmica não é o cansaço físico comumente relatado por contaminados pelo novo coronavírus. Essa nova condição refere-se a um cansaço permanente em meio a todo o contexto trazido pela pandemia, podendo fomentar um quadro alarmante.

De acordo com a psicóloga clínica e sócia proprietária da Clínica Analítica e Instituto de Psicologia (Caip), em Bauru, Carolina de Menezes Santos, a hipervigilância contribuiu para o surgimento dessa condição. "O fato de nós estarmos o tempo inteiro nos precavendo de algo invisível aos olhos humanos nos deixa mais vulneráveis a transtornos como ansiedade, depressão e crises de pânico", explica.

A profissional começou a receber pacientes com sinais de fadiga pandêmica já em junho do ano passado. De lá para cá, Santos estima que o número de casos atendidos por ela cresceu cerca de 60%. "As pessoas com essa condição apresentam baixa resiliência, que corresponde à habilidade humana de transitar por dificuldades", acrescenta.

Essa baixa resiliência, ainda segundo a psicóloga, deixa os pacientes mais inseguros e até displicentes em relação às medidas de prevenção da Covid-19, como o uso de máscara e álcool em gel, além do distanciamento social, facilitando a sua contaminação pela doença. "Fora a possibilidade de o corpo somatizar o problema, momento em que aparecem alguns sintomas físicos, como a dor de cabeça".

Santos alerta que, quando as pessoas já apresentam algum transtorno mental ou feridas abertas, a fadiga pandêmica também pode funcionar como uma espécie de alavanca para os pensamentos suicidas. "Por isso, a primeira recomendação é encontrar um profissional que as ajude a organizar os sentimentos e a rotina propriamente dita", recomenda.

A psicóloga informa, ainda, que o luto pode intensificar os sinais da fadiga pandêmica, causando traumas difíceis de ser contornados. "Diante disso, o sistema de saúde como um todo precisa se preparar para atender a essa demanda, que cresce a cada dia que passa", adverte.

JÁ NO CORPO...

Professor titular do Departamento de Patologia da USP São Paulo e coordenador do curso de Medicina da FOB/USP Bauru, o médico Luiz Fernando Ferraz da Silva pontua que o esgotamento costuma aparecer em qualquer situação de alerta, mas a fadiga pandêmica se diferencia porque esse comportamento é constante e não há previsão para que chegue ao fim. 

De acordo com o especialista, o estresse constante dificulta até mesmo a ação do sistema imunológico, deixando o organismo vulnerável a qualquer doença. "Fora o risco de normalizar a pandemia, o que leva muita gente a deixar de seguir as medidas de prevenção da Covid-19 em um momento em que o País registra uma média de 2 mil óbitos por dia", observa.

O médico narra que, nos primeiros meses da pandemia, o fato de estar na linha de frente fez com que ele vivesse essa realidade 24 horas por dia. "Chega uma hora que esgota e, para evitar que isso acontecesse, eu resolvi reservar um momento de descanso psicológico: uma ou duas horas por dia, eu me sento para brincar com o meu filho".

Essa, inclusive, é uma das dicas que o profissional deixa para quem se vê em fadiga pandêmica (veja ilustração). Para ele, as pessoas precisam internalizar que tal realidade existe, adaptando momentos de prazer ao dia a dia, em vez de simplesmente esperar pelo seu término. 

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