O medo do julgamento alheio é um dos principais temores da nossa sociedade. Para as mães, a sensação de serem julgadas o tempo inteiro incomoda 46,3% das brasileiras. Isso é o que revela uma pesquisa feita pela Ipsos no Brasil e em outros 27 países. Foram realizadas 23 mil entrevistas, entre 23 de dezembro de 2020 e 8 de janeiro de 2021.
Não seria preciso um levantamento para detectar isso. Basta reparar "por quem" as pessoas perguntam quando uma criança se perde no parquinho, por exemplo. Ou, em casos de delitos de grande repercussão, não é raro ouvir questionamentos sobre se a mãe do infrator "não se sente culpada" pelo erro do filho.
"As mulheres são julgadas o tempo todo e não apenas quando os filhos 'se jogam no chão' - sendo que esse é um comportamento normal e até esperado das crianças. Elas são julgadas pelo modo com que vestem os filhos, como os alimentam - o filho está acima do peso, adivinhe? A culpa é da mãe que não cuida da saúde do pequeno", aponta Rita Lisauskas, autora do livro Mãe Sem Manual (Belas Letras). A jornalista, mãe de Samuca, de 11 anos, ressalta que as mulheres são criticadas independentemente da situação: "São julgadas se trabalham demais (não dão atenção ao filho) ou se trabalham de menos (mimam demais, deixam 'mal-acostumado'). Como a cultura ocidental idealiza demais esse papel da 'mãe', como fixa esse lugar como sendo de comportamentos únicos e padronizados, qualquer coisa que saia desse papel merece julgamento. Como somos todas diferentes e múltiplas, é difícil se encaixar nesse papel".
A doula Tatiana Fávaro, mãe de Helena, de 5 anos, e Francisco, de 3, acredita que, para além do julgamento explícito, a crítica velada, aquela que está entranhada na estrutura social, aparece em forma de angústia, de culpa materna. "Nos grupos de mães, nas rodas de conversa (agora virtuais), no contato com mulheres da gestação ao pós-parto, é quase unânime a sensação de insuficiência, de estar sempre 'devendo'. E isso não é julgamento explícito, mas a estrutura patriarcal falando baixinho no nosso ouvido em forma de maternidade compulsória, do mito do amor materno imediato e incondicional, dos três - ou mais - turnos que as mulheres assumem entre trabalho, crias e casa. É a divisão de tarefas injusta, é a madrasta estereotipada, é a mãe solo cobrada até a tampa, é a competitividade entre mulheres incentivada, são as figuras da guerreira e da heroína que vão fazer de tudo para ganhar esses 'pseudotroféus', enquanto são distraídas do peso que estão carregando, injustamente." Diante da multiplicidade de angústias, Tatiana idealizou a rede ativista consciente Criar Filhos (@criarfilhos).
Mesmo cuidando e compartilhando o desenvolvimento dos filhos, homens e mulheres têm percepções diferentes quando o assunto é julgamento. Ainda segundo o estudo da Ipsos, no comparativo com as respostas de pais, há uma diferença de mais de 10 pontos porcentuais: 35,9% do sexo masculino disseram se sentir julgados frequentemente ante 46,3% das mães. "A ideia de que o cuidado com os filhos é algo que cabe mais à mãe do que ao pai é algo que está introjetado na nossa sociedade, então acredito que seja por isso que as mulheres se sentem mais julgadas ou se culpam quando o filho 'não se comporta bem'. Se a criança está fazendo algo que a sociedade julga como 'negativo' e que pode ser entendido como tal, 'a culpa é da mãe', ou seja, dessas mulheres. Os homens se sentem menos culpados por proibir os filhos de fazer algo, por exemplo, porque esse papel de dizer 'não' também acaba sendo mais nosso do que deles", avalia Rita.