Em uma das edições do JC, disse manter o velho hábito de tomar o café da manhã lendo as notícias locais e as cartas trazidas nas páginas Opinião e Coluna do Leitor. Sigo esse ritual há anos, mesmo nas publicações de domingo do JC, que supera o número de páginas das edições semanais, aumentando a capacidade de publicar as cartas recebidas dos leitores. Neste último domingo, a leitura do texto epigrafado - A majestade o Sabiá - bonita história descrita por Cinthya Nunes, me fez recordar o Sábiá Laranjeira, também conhecido como Sabiá do Peito Vermelho, pássaro a mim presenteado por meu vizinho dr. João, um dentista aposentado admirador de aves silvestres canoras espalhadas pela natureza, com variadas espécies localizadas na mata de seu rancho de pesca nas margens do Rio Batalha, região de Avaí.
Naquela época, a exemplo do dr. João, tinha diversos pássaros silvestres aprisionados em gaiolas, deles provindo ao raiar do sol até o seu poente, cantos entoados ao longo do dia, dando incomum alegria ao ambiente de minha casa. As gaiolas eram mantidas penduradas no teto da lavanderia, distantes do alcance de eventuais predadores, onde os pássaros gorjeavam incessantemente, e, por curiosidade, obedeciam um comum silêncio entre 12h e 14h, como se fosse uma ordem superior para quietarem-se naquele horário. Outro fato que chamava a atenção era o final do horário do silêncio, pois, ao aproximar-se das 14h, o primeiro pássaro que trinava puxava o coro dos demais, reiniciando-se uma eufórica cantoria das variadas espécies, outrora encontradas no campo e no cerrado, hoje desaparecidas em face da perseguição irregular e pelo desenvolvimento urbano nos bairros periféricos, tomando lugar dos campos e cerrados.
Em conversa com o dr. João, disse-me que passava os finais de semana em seu rancho no Rio Batalha, pescando lambaris, e ouvia naquele período do ano ( creio ser primavera ) o cantar de um Sabiá Laranjeira bem próximo da área onde fisgava os pescados. Ouvia outros pássaros cantando, inclusive Sabiás no denso cerrado das cercanias do rio, mas o som vinha de longe sendo difícil identificar o exato lugar de permanência de cada pássaro. Mas o Sabiá referido pelo dr. João estava próximo do rancho facilitando sua procura. Então ele caminhou de mansinho sob as árvores até localizar, numa delas, o galho onde o pássaro marrom de peito vermelho, o autêntico Sabiá laranjeira, símbolo do Brasil, cantava ao lado de um ninho. No ninho havia uma fêmea abrigando os filhotes e entre seus pais selava-se uma irrenunciável divisão de tarefas, cabendo ao macho sair em busca de alimento para os filhotes e a mãe aquecê-los até que a penugem fosse substituída por penas.
Na semana seguinte o dr. João contou-me sobre o precioso achado, dizendo que iria capturar o Sabiá para me presentear. Mas não estaria muito próximo desse dia porque deveria aguardar os filhotes ganharem autonomia e voar na busca da vida própria, abandonando o ninho para nunca mais voltar. Ouvi particularidades sobre o Sabiá narradas pelo dr. João, como amansar a uma ave livre em cativeiro sem perder o que mais possuía de encantador: a magia seu canto. Na década de 80 admirava os sabiás cantando em conjunto nas gaiolas bem cuidadas pelos irmãos Waldemar e Oswaldo Burgo, com os pássaros mantidos em gaiolas penduradas nas paredes da Casa Burgo, tradicional loja de calçados da Rua Batista de Carvalho. Contudo, na ocasião não tinha interesse em possuir um pássaro dessa espécie. Os preparativos para receber o Sabiá foram providenciados, tais como a aquisição de gaiola de madeira (sem arame), o isolamento da ave das pessoas nos primeiros dias, a promessa muito bem cumprida do vizinho Cel. Bretas de entregar-me alimentos naturais do Sabiá, minhocas e bigatos, criados para os seus próprios pássaros, com a observação de misturá-los com ração própria, afim de acostumarem-se aos poucos com a nova dieta. Tudo pronto, faltava o Sabiá.
Certa manhã chegou na minha casa o dr. João segurando uma gaiola com um Sabiá se debatendo dentro dela, numa desesperada demonstração que lutava pela reconquista da liberdade. O dr. João não escondia nas palavras a emoção que o dominava na entrega da prenda. Era o final da promessa cumprida e o início de minha convivência por 10 anos com um pássaro de porte elegante, de olhos grades e arregalados da cor de fogo e desinibido em soltar seu primoroso canto recolhido nas primeiras semana de adaptação a nova forma de vida. Seu harmonioso gorjeio era natural, aprendido na mata ao escutar desde filhote os demais familiares mostrarem a razão de merecer o símbolo de pássaro do Brasil. Coloquei a gaiola num lugar isolado e, paulatinamente aproximava-me do Sabiá encurtando a distância entre nós a cada dia até que a ave acostumasse com minha presença solitária sem esboçar agitação. Chegou a fase da domesticação comendo fruta ou outro alimento que segurava do lado externo da gaiola. Mostrava sua intolerância ao ver outras pessoas dele se aproximando para observá-lo com curiosidade, mesmo as de minha família. Em pouco tempo o Sabiá adaptou-se a vida em cativeiro e a alimentação a base de ração, sendo retirado do isolamento para ficar perto de outras gaiolas na lavanderia. Cantava o dia todo como exímio flautista, assim diziam os entendidos em Sabiá, comparando seu trinar com o som produzido por aquele instrumento musical, se portando como uma majestade perante seus novos vizinhos. Até de noite sobrava fôlego para o Sabiá soltar sua aprazível melodia, caso a lâmpada da lavanderia fosse acendida. Apenas na época da muda, ou da troca de penas, seu canto reduzia a um volume pouco audível e desafinado, aliás, seguindo o comportamento natural de todos os pássaros. Depois de uma extravagante companhia de muitos anos, o Sabiá adoeceu, suportando o seu mal encorujado no assoalho da gaiola. Ali silenciou para sempre.