Cultura

Muito talento e luta social

Iara Biderman
| Tempo de leitura: 3 min

Sílfides e donzelas fantasmas deslizam pelo palco com suas saias esvoaçantes, os tutus românticos que simbolizam os chamados "balés brancos" - o nome surgiu por causa da cor do figurino. Elas são bailarinas da São Paulo Companhia de Dança, nas duas estreias desta temporada. Entre elas, as 11 contratadas na última audição da companhia - cinco são negras.

"Não houve cota. Todas foram escolhidas por sua capacidade técnica e artística", conta Inês Bogéa, diretora da companhia. Mas ainda há, no Brasil, pouquíssimas mulheres negras dançando clássicos de repertório em grandes conjuntos. "Os coreógrafos brasileiros entendem que é o momento de dar mais voz a essa diversidade", diz Bogéa.

No caso da São Paulo Companhia de Dança, uma das condições foi dada, paradoxalmente, pela pandemia. Como as audições foram feitas por Zoom, mais pessoas de fora dos grandes centros puderam participar, com menor custo financeiro. A possibilidade de mostrar seu talento à distância animou Nayla Ramos, 20 anos, a participar da seleção. Nascida em Campinas, no interior paulista, e formada pelo Balé Bolshoi do Brasil, ela começou a vida profissional há dois anos, em Joinville, em Santa Catarina, quando engravidou. Daí veio a pandemia.

"Quando soube que a audição era a distância, achei que era o momento de retomar e começar algo importante na minha carreira." Ramos é afrodescendente, sabe que no Brasil e no mundo as oportunidades no balé profissional para seu biótipo são poucas, mas diz que nunca aceitou rótulos. "Nasci nesse corpo e zelo por ele. Não aceito que minhas características possam ser uma dificuldade para seguir a carreira."

Boa parte dos obstáculos são socioeconômicos. "A formação em dança clássica é cara, cria uma defasagem racial e social", diz o coreógrafo e pesquisador Rui Moreira. É algo, aliás, histórico - o balé nasceu como dança de elite, na corte europeia. "Isso contribuiu para profissionalizar a dança, mas gerou restrições econômicas, de classe, até geopolíticas, porque isso foi definindo tipos específicos de corpos", diz ele.

Moreira, bailarino negro, dançou clássicos e contemporâneos em grandes companhias, como Cisne Negro, Balé da Cidade de São Paulo e Grupo Corpo. Atualmente, faz parte da curadoria do Festival de Dança de Joinville. Nesse festival, em que o balé clássico é muito forte, a participação de bailarinas negras sempre chama a atenção, diz.

MOMENTO HISTÓRICO

Mulheres, no entanto, sempre enfrentaram uma situação mais difícil. "Para cada 20 bailarinas se formando, há um homem", diz Rui Moreira. Na época em que ele se profissionalizou, as companhias precisavam de corpos masculinos para seu elenco, e era mais fácil para os meninos conseguirem bolsas que bancassem a formação. Mesmo assim, a falta de representação de corpos negros e não europeus persistiu. Segundo Moreira, isso começou a mudar, aos poucos, depois da Segunda Guerra. 

Também nos Estados Unidos, George Balanchine, que desertou da então União Soviética para fundar o New York City Ballet, criou novas técnicas e adaptou o balé aos corpos miscigenados do chamado novo mundo. Mais tarde, George Mitchell, o primeiro negro a dançar na companhia nova-iorquina criada por Balanchine, fundou o balé do Harlem, bairro negro de Nova York, depois de passar uma temporada no Brasil.

Desde então, começou a circular uma visão mais contemporânea dos clássicos da dança, fazendo com que os corpos sejam mais plurais e mais bem aceitos pelo público. Mas o recorte socioeconômico continuou restringindo o acesso a esses corpos.

Segundo o bailarino Rui Moreira, é marcante ver tantas afrodescendentes entrando numa audição, com quase 150 candidatas, para uma das principais companhias do estado e do País.

"Tem muito a ver com o momento histórico atual. É o talento de cada bailarina, mas, também, é resultado de muita luta social sim. E de uma leva de bailarinas que teve acesso à formação, com projetos que levaram a dança aos lugares aonde ela não chegava", afirma o bailarino Rui Moreira.

Serviço

"Giselle - Ato II e Agora", acontece de 24 a 27 de junho (quinta a sábado, às 19h; domingo, às 17h), no Teatro Sérgio Cardoso (rua Rui Barbosa, 153, São Paulo - Capital). A peça tem transmissão online gratuita: https://www.youtube.com/user/AudiovisualSPCD

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