"O espetáculo maior é a vida". Essa era a frase que norteava a trajetória da bailarina e professora Ruth da Silva Nham, que morreu na tarde dessa sexta-feira (25), aos 95 anos – completados no último dia 21 de março. Ela estava internada no Hospital São Francisco, em Bauru, e não resistiu a uma parada respiratória por volta das 15h.
Uma das pioneiras do balé clássico em Bauru, Ruth Nham contou, em entrevista ao JC, que decidiu dançar ainda na adolescência, por volta dos 12 anos e tudo começou no Teatro Municipal de São Paulo. "Lá, tive aulas com nomes como Madame Olenewa, Halina Biernacka, grandes professores daquela época. Naquele tempo, exigia-se muito do balé e o povo que ia com a finalidade de dançar e aprender, ia com todo esse entusiasmo de dançar com alma", disse na ocasião.
Anos depois, participou dos três primeiros Congressos Sul-Americanos do Ensino da Dança, levou sua companhia ao Festival de Joinville e a Córdoba. Homenageada com o prêmio “Anna Pavlova” como uma das cinco melhores bailarinas do Brasil, Ruth Nham preencheu os palcos do Theatro Municipal de São Paulo - onde deu aulas - e dos teatros de Bauru com um pouco de sua visão poética do mundo e sua força de vida. Era uma das grandes homenageadas da Cia. Estável de Dança de Bauru, que chegou a fazer uma apresentação de gala quando Ruth celebrou 90 anos de vida.
Filha única, ela nasceu em São Paulo, mas fez de Bauru sua casa e já se sentia bauruense, de acordo com uma de suas filhas, Renata Nham. "Minha mãe ficou aqui por mais de 50 anos, gostava muito da cidade. Foi a pioneira do balé em Bauru."
Ruth Nham chegou em Bauru em 1969, acompanhada do marido João Nham - que faleceu em 2013. Na época, não havia escola de balé na cidade. E assim nasceu a Escola de Ballet Ruth Nham. Ela começou a dar aulas no Bauru Atlético Clube (BAC). De lá, foi para o Colégio São José e depois para o Bauru Tênis Clube (BTC), onde se aposentou nos anos 2000. A escola, segundo Renata Nham, fechou anos depois.
A bailarina e professora criou inúmeras coreografias para a cidade, entre elas o “Uirapuru”, com música de Villa-Lobos, e “Gabriela Cravo e Canela”. “Inclusive, a peça ‘Gabriela Cravo e Canela’ rendeu a ela uma homenagem no Museu de Jorge Amado, em Salvador”, recorda a filha. Mas a que mais é lembrada é a peça "O Palhaço". Em entrevista ao JC em 2007, ela contou que que criou a história de um palhaço feliz, que alegrava as pessoas e que foi ficando sozinho. "No fim, uma criança lhe dá uma flor e c´est fini."
ALEGRIA DE VIVER
Além da dedicação aos palcos e aos alunos, Ruth também se dedicou muito à família. Com otimismo e sempre sorridente, deixou importantes ensinamentos aos filhos. “Minha mãe era uma pessoa feliz, alegre e que via beleza e bondade em todas as coisas. Era uma pessoa muito culta, gostava muito de orquestras e literatura. Deixou seu legado. Sem dúvida, uma ótima mãe que nos fará muita falta”, afirma Renata.
Ruth Nham deixa quatro filhos (Pedro, Sérgio, Dóris e Renata), sete netos e três bisnetos. O velório foi realizado na tarde de ontem, no Velório São Vicente, e o enterro será neste sábado (26), às 9h, no Cemitério Parque Jardim do Ypê.