Antes da autoridade sanitária determinar restrições a estabelecimentos comerciais suspendendo seu funcionamento por tempo indeterminado, alguns amigos se reuniam no período da manhã dos dias de sábado na Lanchonete das Lojas Havan, no fito de colocarem em dia os assuntos da semana e outros mais, acompanhados do indispensável cafezinho e pão de queijo. Os amigos habituais sempre presentes aos encontros são Venâncio Alvarez Ocampo, o Ino, Antônio Carlos Duarte, Luiz Carlos P. Balalai, Luiz Augusto O. Castro e este colaborador da coluna Opinião e Tribuna do Leitor do JC, como denomina o editor Jabbour às pessoas que para o jornal escrevem com regularidade. Muitos outros amigos se aproximavam de nossa mesa para nos cumprimentar, permaneciam algum tempo se envolvendo na conversa e, não raras vezes, externavam seu pensamento no assunto debatido.
As questões mais variadas eram ali tratadas predominando os acontecimentos sociais e urbanos históricos de Bauru. Muitas delas vieram noticiadas com amostras fotográficas no Jornal Bauru Ilustrado, editado mensalmente durante 30 anos pelo historiador Luciano Dias Pires e, outros fatos estavam armazenados na memória de cada um dos participantes da reunião. Nome de pessoas falecidas, localização de ruas pouco conhecidas, os políticos e suas realizações, paradeiro tomado por membros de famílias de expressão da época e tantas outras coisas que o tempo cuidou de beira-las no esquecimento, mas eram lembradas pela boa memória dos amigos.
Esse grupo de pessoas, por sua conta e sem nenhuma pretensão externa, criou uma ordem dos historiadores da cidade, a partir do renome ostentado e trabalho publicado, divulgando sobre fatos pretéritos com todas as circunstâncias neles envolvidas. Esses amigos mostravam-se bem identificados com esse tipo de assunto, de modo que as conversas alheias eram esquecidas ou tinham espaço diminuto na mesa do café. Gabriel Ruiz Pelegrina, Luciano Dias Pires, Irineu Bastos e João Francisco Tidei de Lima, são, nessa ordem (ordem nomeada por critério dos amigos do cafezinho, repita-se), as pessoas que mais se destacam em Bauru como verdadeiros analistas do passado desta cidade deixando a marca de ser um fato relevante. Com a morte de Gabriel, os historiadores se reduziram a três pessoas e foi após esse evento, durante o café na lanchonete da Havan que o nome do 2º historiador passou para o 1º lugar, o do 3º para o 2º e do 4º para o 3º. Para manter as quatro posições da lista passou-se a cogitar novo nome com as mesmas condições dos demais para fazer jus a escolha. Houve demora para que esse tema fosse colocado em discussão na mesa do café e, eis que no interregno, nosso amigo historiador João Francisco surpreende a família e toda sociedade com seu óbito sem aviso, despedindo-se em apenas poucas horas de um dia.
João Francisco era um vocacionado historiador. E pôs em prática esse pendor tornando-se professor de história na Unesp. O bom avaliador do desempenho do professor na sala de aula é o aluno aplicado. É ele quem ouve o professor durante todo o curso e tira suas conclusões sobre o mérito. Os ex alunos de João Francisco a ele atribuiu o melhor grau de avaliação pelas suas substanciosas aulas. Além dessa qualidade, João Francisco contava com a admiração de todos, colegas, alunos, ex-alunos, amigos que o encontrava casualmente, como fui, esbanjando significado a simplicidade da vida. Seu apego a história, disciplina que lecionou até aposentar-se, o levou a dedicar-se ao estudo da história de nossa cidade.
Conheceu e estudou todos os acontecimentos importantes de Bauru, sociais, políticos ou de outra natureza tendo a facilidade de expressá-los com a dialética do bom professor. Parece não ter deixado escrito o imenso material recolhido em sua memória e rascunhos sobre a história de Bauru.
João Francisco me faz lembrar o comentário de um professor, no velório de outro professor, colegas de faculdade, ao dizer que naquela urna jazendo um corpo inerte, se perdia um tesouro, sendo impossível a ciência aproveitar o cérebro em outro ser humano com vida.