A Estação Central Ferroviária foi inaugurada em 1939. Passaram a operar neste terminal três empresas: a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil - a proprietária - além da Estrada de Ferro Sorocabana e a Companhia Paulista de Estrada de Ferro. Este hub ferroviário fez com que o Município se tornasse o maior e mais importante entroncamento ferroviário da América Latina.
A cidade teve seu núcleo urbano inicial na região onde hoje é a Baixada do Silvino. Com a chegada das ferrovias e a inauguração da Estação Central, ocorreu a primeira grande descentralização da ocupação urbana. A Estação atraiu casas bancárias, armazéns atacadistas, os setores de saúde e educação, comércio, serviços etc.
A Estação operava com vigoroso movimento, acumulando o transporte de mercadorias e de passageiros das três malhas ferroviárias. A partir da sua vocação ferroviária, Bauru atraiu imigrantes para trabalhar nas lavouras de café. Os descentes conseguiram sucesso financeiro e profissional com novas atividades que, num futuro próximo, passaria a ser a principal atividade econômica da cidade: o comércio. Muitas lojas se instalaram na rua Batista de Carvalho e cercanias. A cidade vivia quase que exclusivamente em função das ferrovias.
Na década de 1950, o Governo Federal unificou as ferrovias administradas pela União em uma empresa de economia mista, a RFFSA-Rede Ferroviária Federal, reunindo 22 ferrovias, inclusive a NOB, com sede em Bauru. O início do ocaso do setor ferroviário no Brasil, no entanto, foi decretado pelo presidente J. Kubitschek com o incentivo à implantação de montadoras de automóveis e construção de rodovias, a partir da década de 1950. Em Bauru, o forte setor ferroviário foi perdendo espaço, importância e o significado. O Governo Federal concedeu à Novoeste, na década de 1990, as linhas da RFFSA/Bauru. Em 2001, os trens de passageiros circularam pela última vez. As empresas localizadas nos arredores da Estação conheceram o seu declínio e a maioria fechou. A partir de então, a Estação vivencia um cenário desolador. Em 1999, o patrimônio da histórica Estação foi tombado pelo Codepac. No início dos anos 2000 a Estação foi destinada ao Sindicato dos Ferroviários, para saldar débitos trabalhistas. Em 2010, a titularidade foi adquirida pela Prefeitura.
As mais variadas destinações foram propostas pelos diversos prefeitos, mas, a Estação acabou mesmo abandonada. No mínimo, o aparatoso terminal de transportes poderia abrigar diversas atividades, economizando grandes somas em aluguéis aos cofres municipais, além de propiciar uma revitalização da região.
Tudo não passou de propostas vazias, sem consistência, apenas para empurrar com a barriga a falta de vontade política para resolver o crônico problema, que é de grande interesse para a cidade. Que pena! A Estação continua jogada às traças, literalmente. Nenhum governante assume a paternidade! Ao menos em atitude de respeito à memória ferroviária e ao significado que ela representa para a cidade, a Estação merecia ter um tratamento mais digno, tal como ocorreu em outras cidades agraciadas pelo setor ferroviário.
A falta de memória em Bauru é lamentável! E não se restringe somente à Estação da NOB, mas se estende, infelizmente, a outros prédios e monumentos históricos do Município. "Uma cidade sem memória é uma cidade sem história".
O autor é engenheiro, professor universitário e doutor em Engenharia de Transportes.