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Sem opções de lazer, crianças usam cemitério como 'parque de diversões'

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 3 min

Jazigos, flores, velas e muitas pipas. Apesar de incompatível com a descrição de uma necrópole, papagaios têm sido encontrados com frequência no Cemitério Cristo Rei, na região do Parque Primavera, em Bauru. Isso acontece porque várias crianças que vivem no bairro passaram a utilizar o espaço para brincar. O fenômeno também reflete o histórico déficit de equipamentos públicos de cultura, lazer e esportes, principalmente, na periferia da cidade. O problema piorou por conta da pandemia do novo coronavírus, em especial, durante a suspensão das aulas e atividades presenciais junto às escolas e aos serviços de fortalecimento de vínculos. Desassistidos, os pequenos improvisaram. 

Mãe de cinco filhos, a dona de casa Cinthia Aparecida Leonel dos Santos Sanches, de 32 anos, afirma não ser correto as crianças utilizarem o cemitério para diversão, até mesmo, por respeito a quem já partiu. "Porém, nós não temos acesso a qualquer outro espaço decente perto da nossa comunidade", revela.

A família da dona de casa vivia no Assentamento Canaã, na região da Unesp, mas chegou às proximidades da quadra 6 da rua Sargento Leôncio dos Santos, no Parque Primavera, em 2019, após processo de reintegração de posse relativo à propriedade onde vivia. Ainda segundo Sanches, a suspensão das aulas presenciais também desestimulou as crianças a seguirem com os estudos em casa e os pequenos passaram a brincar pelas ruas. "Eu temo pela segurança dos meus filhos, pois o cemitério está cheio de escorpiões e eles ainda podem ser abordados por alguém mal-intencionado", comenta.

O próprio Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) reconhece a dificuldade e a encara com bastante preocupação. "Quanto aos espaços públicos para que essas crianças possam exercer o direito de brincar, realmente vimos a necessidade de conservação ou até criação", reforça a presidente da entidade, Natália Isabele Barbe, salientando a necessidade de discutir possíveis soluções junto ao poder público e buscar parcerias com o setor privado.

OUTROS BAIRROS

De acordo com a coordenadora da Fundato, que atua diretamente na assistência a crianças e adolescentes das regiões do Nove de Julho e Santa Cândida, em Bauru, Andréa Ferreguti, as crianças têm usado os espaços públicos disponíveis - apesar de, muitas vezes, inapropriados - para brincar não só no entorno do Cemitério Cristo Rei, mas em diversos outros bairros do município. "Sem aulas e qualquer outra atividade presencial, também houve uma desproteção familiar, pois os seus responsáveis tiveram de optar entre trabalhar e deixá-los sozinhos em casa ou deixar o emprego e abrir mão do básico para o seu sustento", argumenta.

Outra moradora da comunidade do Parque Primavera, Cássia Fernanda de Moraes, de 40 anos, explica que não trabalha, mas, mesmo assim, diz ser difícil segurar os filhos em casa. "Um campinho de futebol, onde a criançada poderia até soltar pipa, brincadeira preferida do pessoal do bairro, já me deixaria mais aliviada", complementa.

Sem a opção, a auxiliar de creche Rosemeire Gomes Neto de Oliveira, de 46 anos, deu de cara com crianças brincando no Cemitério Cristo Rei, na semana passada, e fez uma série de queixas em relação à necrópole.

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