O tamanho de tudo depende do espaço dado. Nada deve sobrar ou faltar. Quem quer viver em paz tem que ter senso de medida e, estando em conformidade com os limites, pode tranquilamente se encaixar. Disso sabem os homens prudentes. Disso não sabia a língua do Godofredo. Numa manhã igual a todas, a língua acordou diferente. Grossa, entumecida, incomodava. Bobagem, não deveria ser nada, possível mordiscada dormindo, era só esperar, nada que o outro dia não resolvesse. Na manhã seguinte, a língua estava mais inchada ainda e, de novidade, coçando. Isaura, mulher do Godofredo, reclamou da voz amarfanhada do marido, falasse direito, estava entortando as palavras, tinha bebido novamente? Mas, ao constatar a vermelhidão nojenta da língua, gritou: "Valha-me, Senhor! Isso é desgraça brava do capeta em encruzilhada!"
Às pressas, consultaram um otorrino. O médico, com lanterna e pinça trêmulas, sentiu um calafrio diante do volumoso órgão vermelho, seboso e cascudo. Depois, sem dizer coisa com coisa, requisitou exames de sangue e de imagem. No espelho da manhã seguinte, a língua dava sinais de que a boca ficaria pequena para o que ameaçava acontecer. Desesperado, procurou a mulher e, atropelando sílabas, disse-lhe, num idioma estranho, coisas monstruosas, que ela estranhamente conseguia entender. Isaura descontrolou-se, faltou-lhe o ar, sentiu espasmos musculares intensos, suou de molhar a alma. Cala essa boca, Godofredo! É insuportável o que você está dizendo! E desmoronou num choro convulsivo. O marido, assustado, sem entender o que a língua teria dito, não teve coragem de pedir desculpa, sabe lá o que poderia despencar da sua boca maldita.
Religioso, buscou o padre Geraldo, seu generoso conselheiro. Mal abriu a boca, o pároco entrou em pânico e passou a benzê-lo, vociferando: "Vade retro, Satana! Vade retro, Satana!" Depois, atravessou correndo a nave da igreja e se atirou aos pés do crucifixo. Duas beatas, presenciando a cena, arrepiaram a pele, o véu e os cabelos, e se desembestaram pelas ruas berrando que o diabo estava à solta e se encarnara num pobre cristão. Godofredo deixou a igreja apavorado, sem a mínima noção do que dissera ao padre Geraldo, exatamente como acontecera com sua mulher. No hospital, pediu socorro, mas as atendentes debandaram pelo corredor, implorando ajuda, havia um homem na portaria dizendo coisas abomináveis. Os médicos tentaram ouvi-lo, mas desesperados abandonaram o consultório e o hospital. Alguns ficaram, mas para atendê-lo exigiram que ele se mantivesse em absoluto silêncio. Depois, tentaram, mas não conseguiram trancar a língua sebosa do Godofredo na boca, que ficara pequena.
Dois dias depois, uma banca de médicos especialistas, mais o juiz da cidade, o padre, o prefeito e um vereador se reuniram para discutir e deliberar sobre a estranha ocorrência. Traumatizados, os médicos defenderam a extração radical da língua. O padre concordou de imediato, afinal com o capeta não se deve negociar. O juiz também, pois, mesmo sem língua, o paciente manteria o sagrado direito de expressão, desde que escrevesse ou gesticulasse. O prefeito anuiu, estava ali para defender a segurança dos munícipes. O vereador só balançou a cabeça, reverenciando caninamente a decisão do alcaide.
Godofredo acordou da cirurgia com a boca já vazia de língua. Estava salvo. Arrancamos o mal pela raiz, disse-lhe o médico cirurgião. Dentro de uma semana, ele começaria a ter aulas de libras para que pudesse se comunicar gestualmente com todos. Depois, o cirurgião lhe fez séria advertência: "Você não repetirá jamais, ainda que falando com gestos, as coisas malditas que tanto horror causou às pessoas. Se você repeti-las, Godofredo, eu lhe cortarei as duas mãos!
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.