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A mulher do Gonçalão

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Cidade pequena é um mundinho. Jaricó era isso, um mundinho perdido neste mundão. Nada diferente de qualquer lugar: muita fofoca e olhos bisbilhoteiros pulando o muro do vizinho. Também lá ninguém escapava do chumbo trocado. Tinha também a gostosona, que endoidava a homarada. Era a Rose Cristina, casada com o Gonçalão, desejada por todos os homens e odiada por todas as mulheres. "Vai pra casa, Gonçalão!", caçoavam os companheiros, invejando o amigo que levara tão bela sereia ao altar.

Louca de pedra, a vida tem coisas difíceis de explicar. Não é que o Gonçalão, esquecendo o mulherão que tinha em casa, ia pegar, na casa alheia, a mulher do próximo. O próximo, nesse caso, era o sargento Piau, casado com a Geralda. Feia, desleixada, cabelos desgrenhados, seca, ela era uma tábua sem curva. Muito admirada na cidade, mas apenas pelas cocadas - de derreter na boca- que fazia e vendia.

No boteco, Gonçalão curtia cervejinha e cigarrinho. Sentia-se feliz com a vidinha que levava: mulher bonita e santa em casa e, pra quebrar o gelo, comia a cocada da Geralda. Só que ele não sabia que, neste exato momento, o dono da cocada chegava e puxava cadeira pra conversar. Assustado, Gonçalão disfarçou: seria uma honra tomar uma cervejinha com o condecorado bombeiro de Jaricó. Piau foi direto ao ponto. Você está pegando a minha mulher, desgraçado! Dei uma dura e ela confessou tudo em detalhes. Estou aqui para um acerto de contas, levantou a ponta da camisa, deixando ver um 38 cano longo. Você é um canalha, Gonçalão, mas vou lhe dar uma chance. Se quiser viver, você vai ter que convencer a belezura da sua mulher a passar uma noite inteirinha comigo. Assim, você me paga, na mesma moeda, o sofrimento e a vergonha que me causou. Agora, se ela não aceitar, meto-lhe duas balas no saco, uma em cada bola, e, depois, mais duas na cabeça. Pode escolher. Gonçalão escolheu viver. Pediu um tempo para convencer a esposa. Para aproximar o sargento da Rose Cristina, marcou um churrasco. O sargento chegou com um buquê de rosas vermelhas, elogiando, com todo o respeito, a beleza da esposa do amigo. De cara, ofereceu-se para ajudar. De avental, preparou um molho picante e, depois , com a faca afiada, passou a fatiar a linguiça com golpes que arrepiaram os olhos e a alma do Gonçalão.

Dois dias depois, chorando muito, o marido contou para a esposa a condição imposta pelo sargento. Se você, Rose, não passar uma noite com ele, o desgraçado prometeu que me mata. A minha vida está nas suas mãos! Você vai decidir se me quer vivo ou morto. Perdão, meu amor, casado com um anjo lindo, eu jamais deveria ter me envolvido com a rainha da cocada.

Rose Cristina chorou, xingou, quebrou o espelho e dois vasos de cristal. Não tendo saída, aceitou o sacrifício nojento. Depois, castigaria o marido, mas, primeiro, precisava mantê-lo vivo. Gonçalão avisou o Piau: estou saindo de viagem, a Rose vai lhe pagar o preço exigido. Horário marcado, o bombeiro apertou a campainha. Chorosa, Rose abriu a porta, mas, ao ver o sargento no uniforme de gala, encantou-se. Logo o imaginou com uma enorme mangueira nas mãos, apagando bravamente um fogo colossal. O sargento ofereceu-lhe mais um buquê de rosas vermelhas. Tudo estando do jeito que o diabo gosta, entregaram-se ao incêndio da carne. Agarraram-se, unharam-se, morderam-se, comeram-se, vociferando gemidos e palavrões. Conforme o sargento prometera ao Gonçalão, foi uma noite só. Os outros encontros foram durante o dia. Era muito fogo pra apagar.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais 

 

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