Cultura

'O rock terá de se posicionar'

Danilo Casaletti
| Tempo de leitura: 6 min

"O indiferente não se importa, ele só quer poder/ Fará o possível e impossível pra sobreviver/ Como um inseto pestilento em reprodução/ Fatia o bolo entre a família sem preocupação." Quando Tico Santa Cruz postou a música "Carta ao Futuro", que traz esses versos, no Facebook, em julho de 2020, viu que as mais de 100 mil visualizações em poucas horas não eram à toa. Existia ali um público do Detonautas, banda da qual ele é vocalista, que estava interessado em política e questões sociais.

A canção é uma das faixas do "Álbum Laranja" - outros sete singles foram lançados ao longo de um ano e outras duas canções inéditas, além de uma versão acústica de "Carta ao Futuro", compõem o repertório. O título é referência ao álbum branco dos Beatles (1968) e ao preto do Metallica (1991) e também ao caso das suspeitas de candidaturas laranjas no PSL em Minas, de 2019.

Em letras como "Fique Bem" e "Clareiras", a banda abre para questões que refletem a fragilidade diante da pandemia. Em entrevista por telefone, Tico falou sobre a opção de lançar um disco de crônicas sociais e políticas, haters, sexualidade e os caminhos do rock brasileiro.

O primeiro single do álbum foi "Carta ao Futuro". Naquela altura, vocês já tinham a ideia de fazer um álbum com essa temática social e política?

Tico Santa Cruz - Sou o compositor da banda e, com a pandemia, passei a ter uma rotina mais próxima do violão, algo muito difícil quando estou em turnê. Compus um disco inteiro. Em julho do ano passado, fiz o "Carta ao Futuro" e percebi que ela tinha uma temática diferente das outras músicas que eu tinha feito, que são mais existenciais. Postei no Facebook, de madrugada, em uma versão voz e violão. Quando acordei, no outro dia, já tinha mais de 100 mil visualizações. Cheguei para a banda e disse que era preciso refletir. As bandas de rock do mainstream não têm abordado a questão política, ou fazem algo muito pontual. Resolvemos, então, gravar essa música para lançar. O Marcelo Sussekind, que estava produzindo o outro disco, decidiu não participar. Fizemos a produção por nossa conta. Quando lançamos "Carta ao Futuro", ela bateu 500 mil visualizações no YouTube. Entendemos que existia um caminho, uma abordagem mais política e social, embora os Detonautas tenham músicas que falam sobre esses temas desde 2002

Como esse caminho foi discutido pela banda?

Tico Santa Cruz - Parte da banda sempre se dispôs a falar sobre esses assuntos. A outra ficou meio receosa por conta de todas as retaliações que sofremos ao longo dos anos por questões de posicionamento político, polarizações, brigas de Internet. De comum acordo, entendemos que esta música tinha uma função como crônica. Fiz uma alteração na letra original para ir ao encontro do que todos pensavam. Acabou funcionando até melhor.

O rock nasceu transgressor, marginal, e hoje você apresenta uma música como "Roqueiro Reaça". O que houve?

Tico Santa Cruz - O rock é um estilo que fala de liberdade. Ele não é ideológico do ponto de vista de esquerda ou direita. Você não precisa ser de esquerda para ser do rock. Mas ele combate, no sentido de postura, o autoritarismo, o totalitarismo e a retirada de liberdades individuais ou coletivas. Então, você pode ter gente de direita, mas que não concorde com a retirada de liberdade. O que não dá para entender é um cara que se diz conversador, que soma voz a regimes autoritários, se colocar como roqueiro.

Qual sua avaliação sobre o cenário atual do rock?

Tico Santa Cruz - Neste momento, até pelo o que o Brasil está passando, os artistas que não queriam se posicionar precisaram fazê-lo. O rock é um estilo de classe média. Até pelo custo. Para ter uma guitarra, uma bateria, lugar para ensaiar, você precisa de um mínimo de recursos. Isso já fica distante da realidade da periferia. O diálogo com a galera mais nova, que está ouvindo funk e rap, que fala de outros temas, está difícil. Então, sinto o rock desconectado da realidade - e bastante careta. Não há renovação. Há figuras que foram transgressoras nos anos 1980 e atualmente adotam posturas conservadoras.

Você quer dar nomes?

Tico Santa Cruz - O Roger, do Ultraje a Rigor, por exemplo, que era um cara revolucionário, adotou postura conservadora. O Lobão, que se posicionou pelo bolsonarismo e agora se arrependeu. Por outro lado, também vimos algumas figuras que ficaram em silêncio por algum tempo se posicionarem de maneira mais contundente, como o Dinho (Ouro Preto) e o Badauí (CPM22). Se o rock brasileiro quiser continuar vivo, terá que se posicionar.

Posicionar-se foi algo que você aprendeu ao longo dos anos, não só sobre política, mas sobre racismo e questões de gênero?

Tico Santa Cruz - O racismo faz parte da minha vida desde muito cedo. Eu fui adotado por uma família que o pai era negro e a mãe branca. Meus irmãos de consideração são negros. Como branco, eu via a forma diferente com a qual eles eram tratados. Eles são de classe média alta e compartilhavam comigo de escolas e outros ambientes onde eu via nitidamente isso acontecer. Sempre estive nesse debate. As redes deram voz a pensadores e intelectuais negros como Silvio de Almeida, Djamila Ribeiro e Preto Zezé, e eu tenho me aprofundado ainda mais no tema.

Como lida com haters?

Tico Santa Cruz - O Detonautas foi a primeira banda formada na Internet, em 1997. Passamos por todas as redes. Então, lido com eles desde sempre. Sempre sofri críticas, ataques. A banda foi estigmatizada. Paguei altos preços por não equalizar direito a maneira como eu apresentava certos conteúdos, até mesmo por não ter a maturidade que tenho hoje. Enquanto os haters estão no campo da Internet, tudo bem. Quando eles ultrapassaram o limite das leis, sempre reportei aos órgãos de justiça. A pressão que eles impõem a mim não faz a mínima diferença, mas sei que isso pesa para outros artistas.

Sua família foi muito atingida?

Tico Santa Cruz - Bastante. Meus filhos, todos, de um modo geral. Enfrentamos essas questões até hoje.

Você tem pretensões políticas?

Tico Santa Cruz - Não, absolutamente.

No começo da pandemia, você chegou a postar que havia pensado em tirar a própria vida. O que houve naquele momento?

Tico Santa Cruz - Em um cenário como a pandemia, você entra em contato com muitos sentimentos, como de luto, angústia, ansiedade, depressão. Você olha para o futuro e não sabe o que vai acontecer. Eu faço terapia desde 2004. Esse assunto é algo recorrente no meu tratamento. A intenção não é tirar a vida, é acabar com a dor daquele momento. Essa dor é transitória. Pelo meu conhecimento terapêutico, soube identificar e neutralizar esses sentimentos. O motivo dessa fala era chamar a atenção das pessoas para a importância de estar conectado com algum tratamento ou acompanhamento psicológico.

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