Geral

Kaingangs se instalam sob viaduto para vender balaios

Guilherme Tavares
| Tempo de leitura: 2 min

"Meu marido está com problema e tenho um filho que não anda, por isso eu vim negociar as coisas". O relato é de Naíra Pereira Pires, 47 anos, que saiu da aldeia de Apucaraninha, no Paraná, para vender balaios de roupas em Bauru. Ela, que conta ser descendente dos kaingangs, está, juntamente com mais oito indígenas, sob o viaduto no cruzamento das avenidas Nações Unidas e Duque de Caxias, onde o trabalho de taquara pode ser conferido.

Há duas semanas, o grupo trouxe centenas de itens para vender, gerar renda e ajudar no orçamento familiar. Naíra, por exemplo, mora com o marido e seis filhos. "Diz que, há alguns meses, vendeu bastante aqui. Por isso, vieram de novo", conta, referindo-se a outros indígenas que estiveram em junho deste ano em Bauru, também oferecendo balaios.

Os cestos são coloridos, com desenhos geométricos típicos da cultura indígena, passada entre gerações há milhares de anos. Como trouxe material, Naíra também tem confeccionado sacolas para oferecer pelas ruas de Bauru.

IMPROVISO

A precariedade, no entanto, marca a estadia do grupo na cidade. Para tomar banho, por exemplo, tiveram que improvisar. "Lá, na pracinha, tem torneira. O homem 'deu' a torneira pra gente tomar banho lá", relata. Sobre o longo período longe de casa, ela afirma estar acostumada.

A falta de segurança também não parece preocupar. "Ninguém mexe. Aqui é melhor que em outros lugares, ninguém incomoda", diz. Entre eles, inclusive, ainda há um 'piá' - uma criança, no linguajar da região Sul do Brasil.

O grupo pretende ficar em São Paulo até o começo de outubro, para, então, voltar ao Paraná e produzir mais. "Se vender tudo, a gente vai embora antes", relata Naíra. Alguns dos indígenas, inclusive, têm ido comercializar as balaios em cidades da região.

NATIVOS

Segundo o professor doutor em História Edson Fernandes, até meados do século 19, os kaingangs ocupavam o Centro-Oeste Paulista juntamente com outras etnias. Com a construção da estrada de ferro, no início do século 20, conflitos acirraram-se e muitas aldeias foram dizimadas.

Houve também tentativas de pacificação, que contaram com ajuda justamente dos kaingangs do Paraná. "Construíram um acampamento de pacificação e trouxeram três intérpretes do Paraná, que já estavam pacificados", conta o professor.

Comentários

Comentários