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As dores invisíveis

Claudia Zogheib
| Tempo de leitura: 2 min

Atualmente estamos convivendo com a necessidade urgente de simbolização frente à tantos conteúdos a que estamos expostos no cotidiano. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, estamos no caos da pós-modernidade, e nosso corpo e mente ao tentar se equilibrar, acabam assimilando todas as mazelas decorrentes desta situação: não estamos dando conta!

Parece que toda a convivência: com coisas e pessoas, se estabelece potencializada, e desta maneira, nos falta tempo para vivenciar os fatos... e quem dirá pensá-los. A falência do modelo único do ser, passa a ser vivido como libertação: mas ainda nos falta o chão e, diante deste impasse, os laços simbólicos sofrem, e a cultura produz uma forma de subjetividade que se esforça para caber dentro deste modelo.

Estamos cheios de dores emocionais, o nosso corpo e mente pedem trégua, pedem coerência: eles estão sofrendo, e quem não cabe neste modelo sofre, muitas vezes se culpa por sentir e ser, efetivamente ... diferente da norma. No "Mal-Estar da Civilização" 1930, Freud assinala que o desamparo nos ameaça em três frentes: o corpo é vulnerável, o mundo físico é adverso, e a convivência entre os homens está longe de ser tolerável. Assim, quando estamos expostos a muitos estímulos sem a permanência da simbolização, adoecemos como sinal de excesso e do pedido de socorro a uma reorganização: as relações estão decepcionantes.

Tantas dores invisíveis nos acompanham: depressão, medo, desamparo, ansiedade, tristeza, e também solidão, por não conseguirmos estabelecer sentido à nossa própria companhia, diante de tais sentimentos. Neste cenário, parece que a única saída possível seria pensarmos a dor, atravessá-la, para talvez quem sabe entendermos e encontrar a sua origem, e porque ela se manifesta dentro de nós: dar-lhe um sentido possível. Quando Freud escreveu "Além do Princípio do Prazer" 1920, ele já apontava para a compulsão a repetição no sentido de repetir a dor, que como um sentimento inconsciente de culpa, impõe-nos a uma insistência na angústia e, assim, tendemos a repetir aquilo que não possibilitamos encontrar sentido, e a escassez de pensamento dificulta o processo de simbolização.

Precisamos ter coragem para pensar a dor, para entender a angústia, e para aceitar que também sentimos dor. Precisamos ter coragem para estar no sofrimento, e também para estar na alegria. Precisamos desenvolver a capacidade de estar só, sem tantos estímulos, sem tantas atribulações, simplesmente estar, sem grandes necessidades de interpretação. Caso isto não seja possível, continuaremos a não estabelecer sentido para as dores invisíveis, e o desamparo continuará a ser o destino certo da humanidade.

Em tempo, este texto foi escrito ao som da música "Beatriz", de Milton Nascimento, para o Grande Circo Místico.

A autora é responsável pelas páginas Cinema e Arte no Divã, Auguri Humanamente. Psicanalista pela USP, psicóloga clínica pela USC.

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