Quando optou pela licenciatura, ao invés do bacharelado, em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Marcos Rogério Jesus Chagas considerou sua paixão por ensinar. O que ele não imaginava é que, aos 39 anos, mesmo após um mestrado e quase uma década como professor concursado e efetivo da rede estadual em Bauru, teria que fazer bicos nas horas vagas como pedreiro para complementar sua renda. Nesta sexta-feira (15), Dia do Professor, o JC conta este caso que simboliza a dura realidade dessa categoria, que é importantíssima e deveria ser mais valorizada.
É nos finais de semana que a caneta e os livros dão lugar à enxada e ao carrinho de mão na vida do professor Marcos Chagas. Assentamento de revestimentos e pequenas obras, como a reforma de calçadas e fachadas, são bem-vindas. Ele conta que o dinheirinho extra tem sido essencial por causa dos reajustes dos últimos meses nas contas fixas e da defasagem salarial da categoria. Questionada, a Educação estadual não nega que a remuneração é baixa e diz que trabalha pela valorização dos profissionais (leia mais abaixo).
"Sempre trabalhei. Mesmo antes de ser professor, tive outros empregos e profissões. Mas, faz um tempo que as coisas estão ficando cada vez mais difíceis no nosso País e no Estado, com quase uma década sem reposição ou aumento salarial aos professores. Estamos chegando ao fim do poço", critica Chagas, que recebe do Estado R$ 12,93 por hora aula ministrada na Educação Básica Nível 2, o que, no fim do mês, resulta em um salário de R$ 2,5 mil por 40 horas semanais.
"Seria muito bom e justo conseguir manter minha casa sem precisar de bicos. Eu tinha como opção ampliar minha carga para 60 horas semanais de aulas, mas seria intelectualmente cansativo, adoecedor. Então, preferi usar o que eu tinha como experiência, como pedreiro, apesar do desgaste físico. É triste, porque eu deveria estar estudando e me reciclando, mas, ao invés disso, estou com a enxada nas mãos", completa ele, mostrando os ferimentos nas mãos decorrentes do trabalho pesado.
NA ADOLESCÊNCIA
Filho de faxineira e de um vigilante, Marcos morava na Capital e, na adolescência, precisou abandonar os estudos, quando o desemprego bateu à porta dos pais. Além de trabalhar como office boy, também aprendeu, aos 16 anos, fazer bicos como pedreiro com seu genitor.
Sem tempo para o estudo, acabou completando a escolaridade aos 20 anos, no ensino supletivo. E, com a ajuda de um cursinho gratuito, passou na universidade pública, onde se graduou em Ciências Sociais e conheceu sua esposa, que também se tornou professora de Sociologia da rede estadual em Bauru.
Ela, contudo, adoeceu e resolveu deixar a carreira para cursar outra faculdade. Marcos, por sua vez, se diz decidido a não desistir e até mergulhou nas atividades do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), como forma de lutar por mais direitos para a categoria. Hoje, ele é coordenador da subsede local da entidade, atividade que exerce sem remuneração.
"Tenho orgulho da minha profissão e dos professores. Se temos bons resultados em escolas, é por causa do esforço pessoal de cada educador. Toda vez que colocamos um aluno dentro de uma universidade é uma vitória", fecha questão o professor.