Quando o amor é jovem, os amantes têm olhos de exagero. As lentes com que se olham, contaminadas pelo encantamento, fazem deles seres bem maiores e melhores do que realmente são. Olhos encantados são deformadores: ampliam virtudes e, na mesma medida, apagam defeitos. Nesse estado de arrebatamento, a linguagem amorosa fala mais pelos olhos do que pela boca. Nas vezes que resolve falar com palavras, não consegue dizer coisa com coisa, fica se enroscando num lenga-lenga de diminutivos e de balbucios pueris, mostrando o quanto é ridículo o dicionário amoroso. Os amantes falam também, e muito, com mãos carinhosas que, em reciprocidade, se acariciam e se perdem no macio dos cabelos. Há entre eles, pouco importando o que vão dizer, um intenso desejo de concordar um com o outro e de se apoiarem incondicionalmente. Juntos estão para o que der e vier.
O problema todo é que o amor também paga tributo ao tempo, o amor também envelhece. Neste momento, ele corre grave perigo de perecer. É o que nos avisa o psicanalista Contardo Calligaris: "Talvez a maioria dos relacionamentos amorosos adoeçam e morram por causa disto: não porque o parceiro deixou crescer uma barriga displicente nem porque a gente estaria cansado da mesmice e a fim de novidades, mas porque, ao vivermos juntos, aos poucos perdemos a generosidade. E a generosidade é o próprio amor."
Com o gotejar diário do tempo, é natural que aquele arrebatamento apaixonado deixe de existir e os parceiros passem a se ver de forma realista. O que não pode deixar de existir é a generosidade, esse esforço constante de tornar a vida do companheiro mais leve e mais agradável possível. Hora de cumplicidade, de respeito, de empatia... Rubem Alves, em bela imagem poética, compara o amor-generoso ao jogo frescobol: parceiros esmerando-se em lances cooperativos de raquetes para não deixar a peteca cair.
Triste é saber que muitos casais passam, com o decorrer do tempo, a jogar tênis competitivo. Cada um lançando a bola mais difícil para o outro derrotar. Da fase de encantamento passam ao desencantamento. As lentes que ampliavam as qualidades do parceiro, agora só ampliam defeitos numa lista interminável de cobranças: no vestir, no comer, no falar, no pensar, enfim no jeito errado de ele existir. O que era admiração recíproca vira agressão recíproca. Antes, cada um era amado pelo que era; agora se exige que ele seja o que nunca foi.
Triste constatar, mas o príncipe e a princesa viraram sapos. Dizendo de forma prosaica, a vaca conjugal foi para o brejo.
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais