Tribuna do Leitor

Missa das Bênçãos em Bauru

Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril
| Tempo de leitura: 4 min

Procurei saber com o Donizete Sardinha, por telefone, notícias do padre José Antônio, aquele iluminado sacerdote que esteve à frente da paróquia de Dourado por 20 anos e ficou conhecido em todo território paulista pelas emocionadas missas celebradas todas as quartas-feiras no período vespertino, ganhando merecida fama pelo grande número de frequentadores que ocupava mais da metade do enorme ginásio de esportes, livre das arquibancadas laterais, improvisado como um grande e singelo santuário para acolher os fiéis que não mais cabiam na igreja, invariavelmente lotada quando as missas eram realizadas na igreja São João Batista, de Dourado.

Nesse período da história do padre José Antônio e de suas missas chamadas Missas das Bênçãos, nome atribuído em razão das bênçãos dos fiéis individualmente ofertadas pelo sacerdote após o término delas, estima-se que dezenas e, às vezes, centenas de fiéis, receberam benção individual por quase um minuto cada uma, o que as vezes levava a cerimônia até a noite. Na minha primeira visita à Dourado, as missas eram celebradas na igreja São João Batista, a noite. Lá estive com a esposa e filho, movido pela curiosidade de conhecer de perto esse movimento cristão e, quiçá, ser contemplado com uma Graça que conduzisse a cura de doença em membro da família. Apenas ouvi o desenrolar da cerimônia religiosa do lado externo da igreja, sentado em um banco da praça pública, formando um grupo de muitas pessoas que, assim como eu, chegavam de outras cidades desconhecendo a necessidade da antecedência para garantir um assento no interior da igreja.

O gradativo crescimento do público católico interessado em presenciar as missas, criou uma estrutura de voluntários destinada a organização das cerimônias, as quais, no decurso do tempo, foram deslocadas para outras cidades da vizinhança e também à capital paulista. As pessoas que colaboravam na preparação do local das missas, cuidando da acomodação dos fiéis destituídos de capacidade locomotora, da organização geral para um público que aumentava a cada semana, crescimento constatado pelo volume de veículos estacionados num campo de futebol, ao lado da igreja improvisada, mostrando nas suas placas a indicação da procedência das cidades.

Predominavam os veículos das cidades vizinhas, mas também eram vistos carros do litoral e de estados mais próximos, induvidosamente conduzindo pessoas instigadas pela vontade de conhecer algo novo acontecendo na vida católica, protagonizada por um padre dono de homilia discursada com singeleza, cabendo na compreensão dos mais humildes, senhor de uma voz rouca e as vezes pouco audível, com taxa elevada de diabetes e despojado de alguma característica que o destacasse de seus confrades, salvo a impressionante disposição de fazer da missa um culto não inferior a duas horas de duração sem dar sinais de cansaço, acompanhada em silencio por centenas de fiéis de todas as idades. O padre José Antônio é sobrevivente do vírus Covid-19, vencendo a enfermidade que o deixou entubado na UTI de hospital de São Carlos.

Acredita-se que mudanças introduzidas na celebração das missas sem romper com seus pilares, encaixam-se na intenção da Igreja Católica que sempre necessita ajustar suas finalidades às mudanças da vida social, alavancando o interesse dos fiéis e o crescimento do catolicismo. Não fosse assim, hoje, como a décadas atrás, os católicos estariam assistindo missas rezadas em latim, com os celebrantes de costas para os fiéis. Em certa ocasião o Padre José Antônio celebrou uma missa em São Paulo, terminando as bênçãos individuais a meia noite de terça para quarta-feira.

Viajou da capital até Dourado, descansou por duas horas e se preparou para dar sequência a vida sacerdotal com a tradicional missa das duas horas e meia de quarta-feira. Não deixa de causar espanto a força de vontade de um homem idoso, com mais de 70 anos de idade, acolher os fiéis em sua cidade e peregrinar por outras tantas, para levar o Evangelho em missas emocionantes com narrativas de fiéis atendidos em suas preces dirigidas ao padre José Antônio, geralmente por cartas. Nas missas, o padre deixa claro que não tem a capacidade de realizar milagres, admitindo ser instrumento que conduz as mensagens recebidas dos fiéis a Deus. Ele próprio foi contemplado com um benefício pleiteado a favor de sua igreja destelhada por um vendaval, recebido de pessoa moradora em lugar distante e que sequer o conheceu pessoalmente.

Antes das missas serem suspensas em face da pandemia, o sacerdote não disfarçava seu esgotamento pelo trabalho extenuante, sendo notório seu esforço para manter a fórmula original da missa, deixando a impressão de precisar de uma pausa a reduzir o ritmo de sua missão, afim de rever as viagens para lugares distantes, evitando missas prolongadas, compatibilizando o sistema de trabalho com sua idade e saúde. Ficou licenciado da igreja por dois anos e reformulou a vida sacerdotal, mudando de paróquia e reduzindo, sem interromper, sua abençoada missão dedicada ao Evangelho e aos seus seguidores.

Para matar a saudade dos católicos de Bauru e região, o padre José Antônio aqui estará no dia 17 de dezembro às 19h30, próximo para realizar a Missa das Bênçãos, na empresa de Donizete Sardinha, localizada no Jardim do Contorno, desta cidade. Sem nenhum favor, Sardinha e sua esposa são indispensáveis colaboradores da missão do padre José Antônio, acompanharam-no em todas as quartas-feiras nas missas celebradas em Dourado e cidades adjacentes.

Donizete Sardinha pede aos fiéis a doação de alimento não perecível para ser distribuído à Comunidade Bom Pastor desta cidade e às famílias carentes de Dourado.

 O autor é professor universitário aposentado.

 

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