- Me permita, majestoso, uma séria indagação
Talvez seja inconveniente, mas não é reprovação
Vim pra Bauru moço, no final dos anos 60
Aqui nem existiam prédios que hoje Bauru ostenta
Me lembro que suas águas eram fartas e abundantes
Limpas iguais nunca vi e cardume de peixes saltitantes
Hoje te vejo cabisbaixo, sem vida, sem autoestima
As águas te abandonaram, nem as vejo daqui de cima
Me perdoe, amado Batalha, mas tenho que te dizer
Bauru sem você é nada, não pode sobreviver
Hoje mesmo numa rádio, assustado ouvi dizer
De você nada mais se espera, que o futuro é o Rio Tietê
- Amigo, que bom que você se lembra e mesmo
decepcionado me elogia
Sim, concordo, já fui garboso, cheio de vida e alegria
Essa cidade já me amou, enquanto eu a ela servia
Pescavam, banhavam, nadavam, vinham me ver todo dia
Mas pra que eu possa viver, preciso de alguns cuidados
A natureza é sábia, temos que viver irmanados
Pássaros, árvores, arbustos, protegendo os meus dois lados
Porém, as mesmas famílias hoje me tratam pior que bicho
Sugaram toda minha vida e me dão em troca o seu lixo
Assoreada e sem nascentes eu ainda teimo em respirar
Pois meu destino é servir, até minha última gota secar
- Diz aí o que eu faço pois pretendo te ajudar
Quero vê-lo transbordante, lindo de se orgulhar
Inda vou beber sua água agachado no seu leito
E sentir seu coração, pelas suas águas batendo em meu peito
- Eu vou te pedir, poeta, com toda minha emoção
Fale de mim pras crianças, me salvar só a educação
Nelas moram minha esperança, quero viver, use sua arte
Faz aí no papel o que puder, que eu vou fazendo aqui a minha parte.
Por favor, salvem o Rio batalha!