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A vaca, a vacina e o churrasco

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Que não nos encham o sapo! Quero dizer, o saco! Estamos apanhando tanto neste mundão, que se um infeliz nos pisar o calo, soltamos todos os cachorros pra cima dele. Ele que vá caçar saco! Quero dizer, sapo. São tantos os bichos na nossa boca xinguenta, daí a confusão. Agora, se a gente estiver num dia de sorriso, ainda que amarelo, ele que vá pentear macaco!

Pobres animais, como eles têm sofrido na boca dos homens. E sempre de forma pejorativa. Já percebeu? É a burrice do jumento, as lágrimas fingidas do crocodilo, o azarão da zebra, a promiscuidade da galinha, o lobo em pele de cordeiro, a pesada cruz carregada pelo coitado do veado... Como somos cruéis com os animais! Nos laboratórios, pobres cobaias, morrem inocentes por nós. Fora deles, o bicho pega. Quer ver? Dá pra ignorar a carroça pesada no pescoço do burro arquejante? O que dizer das espadas trespassando o dorso do boi em arenas superlotadas? Quando o espeto afiado desaparece no lombo do touro, a plateia vai ao delírio! E tem mais. Dá pra aceitar a matança dos bichos em caçadas es-por-ti-vas? E o sangue derramado em sacrifícios re-li-gi-o-sos? O Natal se aproxima, aniversário de Cristo, mais sangue ainda: coitado do peru, do cabrito, da leitoa... Existe bicho pior do que o homem? Fiquei com vontade de dizer: sim, a mulher. Mas besta não sou, não vou mexer nesse vespeiro, melhor fazer boca de siri.

E a pobrezinha da vaca? Deus meu, quanta ingratidão bovina! Sempre abandonada no brejo. Sem pedir licença, aproveitamos a carne dela, o leite, o couro, o pelo, as fezes, o chifre... Sim, esse portentoso chifre com o qual temos feito pentes, presilhas, botões, enfim artesanatos que enfeitam aparadores, mesas e cabeças. Da vaca só não aproveitamos o berro. Em tempo, corrijo-me, lembrei-me do berrante. Em tempos de pandemia, a vaca é a nossa mãe salvadora. A palavra "vaca" deriva do latim "vacca", termo presente em "variolae vaccinae" para descrever a doença conhecida como "varíola das vacas". O médico inglês Edward Jenner percebeu que as pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a doença, pois já haviam adquirido a varíola bovina. Por isso, Jenner extraiu material de uma ordenhadora contaminada e o inoculou em um menino, que manifestou varíola, mas de forma leve e passageira. Eureka! Começava assim a história das vacinas.

Não bastasse a vaca alimentar o nosso corpo, agora descobriram que ela alimenta a nossa alma também. Na Holanda, faz sucesso uma terapia para desestressar gente perturbada. Aliás, o que não falta. É a "Koe Knuffelen", traduzida como "abraço à vaca". Países europeus estão aderindo a esse poderoso ecotratamento bovino. A coisa funciona assim: primeiro, a pessoa abraça a vaca com muito amor; depois, sente o calor do corpo dela junto ao seu e acompanha as batidas do coração bovino. Alisando a vaca, ela retribui com um olhar úmido de vaca agradecida. Às vezes, com lambida assaz enamorada. Como fundo musical, ouvem-se melodias eruditas para que o momento seja o mais sublime possível. Nesse momento, é liberado no sangue da pessoa (creio que no da vaca também) o hormônio "ocitocina", sempre presente em situações de forte fruição emocional. Enfim, vaca e ser humano passam a desfrutar de uma paz espiritual até então desconhecida.

Como não homenagear a santa vaca?, Como não lhe render a mais agradecida das homenagens? Santo animal que, segundo o Caetano, dá leite até pros caretas. Celebremos, então, a dona das divinas tetas. Com sal grosso, vinagrete, fogo e carvão, vamos entronizar a vaca no seu melhor e merecido altar. Ei-la na churrasqueira!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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