Se alguém me perguntasse qual foi o principal atributo do professor Mauro Leite de Toledo, falecido na madrugada de sexta, responderia sem pestanejar: o cavalheirismo, atrelado a simplicidade. Uma forte lembrança do professor Mauro é sua imagem sentada frente a máquina elétrica de escrever, marca Burroghs, dedilhando-a para concluir algum trabalho ligado à Faculdade de Direito, fundada por seu pai na década de 50 e herdada pelos filhos. De todos eles, coube ao abnegado professor Mauro dar prosseguimento ao sonho de seu pai Eufrásio, fazendo a escola funcionar com um corpo docente de boa qualidade, mantendo a eficiência de professores que atraiam alunos para concorridos vestibulares. O bom nome projetado entre algumas faculdades de direito que, anos depois, surgiram em massa por todos os lugares do Estado, também pesava na escolha da escola. Esse escopo foi cumprido e o professor Mauro dando mostras de bom e prudente mineiro, conduziu a faculdade de direito, quiçá, além do pretendido pelo seu pai, fazendo dela um seleto centro fornecedor de bacharéis em direito, vertendo advogados de grande prestígio profissional e notável corpo de juízes, promotores, procuradores e delegados de polícia que se espalharam pelo Brasil, aprovados em rigorosos concursos públicos.
A simplicidade do professor Mauro ficou marcada no seu trabalho diário no mesmo salão ocupado por funcionárias administrativas da faculdade de direito. Não possuía uma sala própria, embora a escola disponibilizasse dependências onde poderia trabalhar a sós e solucionar os assuntos de sua alçada sem que fossem ouvidos pelas funcionárias. Mas para quê? deveria ele ter pensado, se nada alí tinha de ser guardado em segredo e tudo era solucionado às claras, nada havendo de sigiloso numa escola de feitio privado, mantida pelo professor Mauro e filhos, mesmo antes de aposentar-se. Envelheceu no mesmo espaço da faculdade datilografando a velha e eficiente máquina de escrever elétrica. Se precisasse conversar com algum professor, ao invés de chamá-lo em sua sala, preferia dirigir-se até a ele, no intervalo de aulas para cuidar do assunto. Gostava de andar a pé, dispensando com habitual lhaneza a oferta de caronas por conhecidos que transitavam de automóvel. Até aposentar-se, era o primeiro a chegar no trabalho na faculdade e o último a sair.
Mostrava um forte lado compreensivo e a fragilidade do coração perante eventual dificuldades de alunos em pagar mensalidades do curso. Sempre ajeitava a situação dos inadimplentes com a postergação do débito, permitindo que frequentassem as aulas e se submetessem às provas.
Seu pacato e rotineiro estilo de vida mudou ao enviuvar-se. Enclausurou-se em sua residência, e somente ali era encontrado por parentes e amigos. Com o rompimento de um casamento longevo, acabaram-se as caminhadas e nada ficou para retomar a vida passada. Perguntei ao dr. Murilo Canelas, amigo próximo do Professor Mauro, que acabara de visitá-lo, como ele se encontrava. Passava o dia procurando e vendo fotografias antigas e lia constantemente, respondeu-me.
Passados alguns meses, fiz a mesma pergunta ao dr. José Fernando da Silva Lopes, outro amigo do Professor Mauro, dele escutando que estava com bom aspecto, lúcido e dedicado a programas de televisão e a leitura. Faleceu serenamente, como sempre foi em vida.
O autor foi professor de direito da ITE durante 25 anos.