Mulher termina com professor de Matemática. Cansada de resolver problemas. Adestrador de papagaios suplica novo emprego. Desmotivado por viver de bicos. Professor de escola particular se veste de Dom Quixote. Motivo? Engajar seus alunos a acreditarem em seus sonhos. Os pais, é claro, reclamaram. Sonhar é muita pretensão de verbo infinitivo. Senhorinha, linguaruda do bairro, agenda consulta três vezes por semana, sabe como é, papo de dentista deixa a gente de boca aberta. Cliente prata da casa reclama ao ourives: de que vale sua mercadoria ser ouro se o seu atendimento é de bijuteria. Romântica busca novo tratamento contra rinite, acostumada de ver seus sonhos virarem pó. Granjeiro, chocado com a atual situação econômica, reconhece pisar em ovos com a retomada da inflação. Papai Noel, livrai-nos da piada pronta. Paciente desabafa: urologista sempre engata dois dedos de prosa. Como se não bastasse, coitado do Deucimar, dormindo no subsolo do motel, não sabe mais o que fazer para as mulheres pararem de dar em cima dele.
Presidente pede em cartinha particular ao bom velhinho que quando crescer, insiste em ser diminutivo pra caber em si mesmo, tá OK. Cuteleiro sensibiliza-se com clientes pelo preço da carne estar uma facada. Paciente apaixona-se por médico do SUS; tal como uma consulta, durou pouco, ele nem olhava na cara, faltava aos encontros, justificando virose. "Não ponha palavras em minha boca.", bravejou o ator contra o diretor de teatro. Desempregada, mãe se veste de ouro falso em frente à Bolsa de Valores como protesto ao sistema econômico concentrador de renda. Coitada, retiraram o que ela tinha de mais humano: a fantasia.
Que o tema 'Brasil colônia' deixe de ser atual, que o Procon do amor exista a fim de ser acionado em casos de se apaixonar por uma fraude; que embora a internet tenha dado voz à idiotice, você não seja obrigado a dar ouvidos.
Identifiquemos o natal não pelas palmas do culto, pelas mãos dadas da missa, da obrigação pela ceia repetida em peru regada a esbanjamento e ao esnobismo da roupa que brilha status. Identifiquemos o natal não pelos embrulhos, pela lotação afoita dos shoppings e supermercados.
Identifiquemos o natal dos excluídos, dos que buscam, .nos papeis de presente jogados no lixo, sonhos de festa; da menina que rejeitada por três vezes em processos de adoção, espera por alguém, dessa criança que pensa que todo o mundo é filho de Papai Noel.
O autor é professor de Língua Portuguesa