Tribuna do Leitor

#SomostodosJaiminho

Leila F. Arruda, educadora e amiga de Jaiminho.
| Tempo de leitura: 4 min

Em 12 de outubro de 2018, escrevi um "projeto guarda chuva" (visto que englobava toda a comunidade bauruense) sugerindo uma campanha extensa em Bauru, com objetivo de conscientizar a cidade sobre a importância de priorizar os pedestres no trânsito. Enviei esse projeto para a prefeitura (Gazzetta), Câmara, Seplam, Secretaria da Educação e toda a mídia, inclusive o Jornal da Cidade. Meu objetivo era que nós, bauruenses, nos tornássemos conscientes da importância de respeitar os pedestres ao atravessar a faixa de segurança. Dei o nome ao projeto de Somos todos Pedestres. Alguma coisa fiz (ou não fiz) que o projeto não atingiu o objetivo proposto, pois o retorno foi muito pouco. Dois vereadores queriam conversar, não fui, e marquei uma reunião com o setor de educação da Emdurb, cuja funcionária achou que já é feito este trabalho. Os demais não deram retorno, demonstrando não dar importância alguma.

Nesse projeto que enviei, uma parte do texto dizia o seguinte: Penso já algum tempo na situação caótica do trânsito de Bauru, assim como em outras cidades do mesmo porte no Brasil. Mas têm algumas cidades onde o trânsito se destaca pela educação da população e do respeito às leis criadas, com o objetivo de maior respeito pelas pessoas, principalmente aquelas que estão a pé ou aos ciclistas.

Mariana é uma cidade onde o pedestre é respeitado no Brasil. Nestas férias de julho (2018), tive o prazer de viajar por algumas capitais como Oslo, Helsink, Tallin e Estocolmo e não consigo deixar de comparar o trânsito destas cidades com o trânsito de Bauru; há todo um respeito aos que estão a pé e aos ciclistas, o que não acontece em nossa Bauru.

Aqui, ruas e avenidas são abertas e não têm um projeto para os pedestres ou ciclistas. As poucas ciclovias da zona sul ficam lotadas de carro e não levam a lugar nenhum. Não foram feitas para mobilidade urbana, mas como simples passeio dominical, o que não é ruim, mas incompleto. Nosso código de trânsito prioriza os pedestres como podemos verificar neste texto. Os pedestres que estiverem atravessando a via sobre as faixas delimitadas para esse fim terão prioridade de passagem, exceto nos locais com sinalização. (semafórica;https://www.portaldotransito.com.br/noticias/conheca-os-direitos-e-deveres-dos-pedestres-no-transito-2/)

Dia 28 de dezembro foi enterrado Jaiminho (Jaime de Freitas Caires), como o chamávamos. Tristemente atropelado na avenida Getúlio Vargas. Morava próximo. Sem documentos, pois foi caminhar na Getúlio como fazia diariamente. Você pode dizer: era só um velho senhor de 88 anos. Quem conheceu Jaiminho não diria isso. Era esportista, risonho, de bem com a vida, cantava em coral, tinha muitos amigos, frequentava regularmente a igreja.

Jaiminho tinha como inspiração seo Antônio, seu pai que viveu lúcido por mais de 100 anos. E Jaiminho era inspiração para os jovens que o conheciam. E aí fiquei pensando... Não faremos nenhuma mudança em nossa educação de trânsito, pelo Jaiminho? Deixaremos passar sua morte, sem mudar nada? Não significará nada para nós, não mudará nada em nós? Paulo, o apóstolo diz: "Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."(Rm 12.1)

Pelo que entendi, um carro parou para Jaiminho atravessar e o outro não conseguiu parar...Talvez, pudéssemos ter evitado a morte do Jaiminho se tivéssemos feito uma campanha intensa sobre sermos todos pedestres. Sinto-me também responsável pelo que aconteceu a ele.

Por tudo isso, eu convoco a sociedade bauruense a não deixarmos essa morte em vão. Vamos iniciar uma campanha geral com cartilhas, faixas, agilizando na prática ações de transformação de nossos hábitos e respeitarmos pedestres e ciclistas. Bauru precisa ser melhor e quando digo Bauru, digo, nós bauruenses. Acredito na educação, afinal desde muito antes de formada como professora em 1968, já me dedico ao ensino.

Acredito nas regras, normas e leis, não tanto como punição, mas como adequações de comportamento, como um reforço de fora, para que as pessoas, antes de desenvolverem novos hábitos, possam executar ações que repetidas, se tornarão uma segunda natureza. Em nosso caso, que os motoristas ao se aproximarem de uma faixa de segurança, já diminuam a velocidade de forma automática e os pedestres, também de igual forma, só atravessem ruas e avenidas utilizando as ditas faixas de segurança.

Convoco jovens, crianças, adultos, associações, igrejas, escolas (cada um no seu pedaço) a erguerem esforços para conscientizar não só a si mesmo, mas ao outro, desenvolvendo uma consciência coletiva. Creio que o número de acidentes e mortes diminuirá, caso levemos esse projeto em frente e encaremos o trânsito de Bauru como um problema a ser resolvido por todos nós.

 

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