Tem que ser muito macho para de cabeça erguida entrar numa loja de lingeries e, com mãos corajosas, ficar avaliando a leveza das calcinhas, pensando tamanhos, escolhendo modelitos e cores. E, depois, com cara de "não estou nem aí", enfrentar a balconista: embrulha que eu vou levar. Era o que fazia Terêncio com competência e imaginação. Claro, sob olhares femininos, alguns de curiosidade, outros de censura e, até mesmo, de náusea. Credo!
Terêncio andava triste, não se conformava com o sexo-arroz-feijão-sem-mistura, perigosamente broxante, que vinha rolando entre ele e a mulher. Por isso, decidiu pôr pimenta na coisa. Espera aí, melhor esclarecer: resolveu pôr tempero na relação sexual, foi isso que eu quis dizer. Quando ele percebia que a Maricota estava usando aquela calcinha barcona bege, ele imediatamente se lembrava da calçola, também bege, da sua vó. Então, apagava correndo a luz para que o escuro chegasse antes do desastre acontecer. Pior ainda, quando ela vinha pra cama cheia de bobes enrolados na cabeça. Era broxante. Queria a Cotinha bem gostosa, num fio dental vermelho com rendinhas provocantes, cabelos soltos, tudo mostrando, nada escondendo.
Machista, merda nenhuma! Era apenas um marido interessado em recuperar o que tinham perdido na cama. Fosse machista, ele teria procurado outras mulheres. Não procurou ninguém. Ele amava a Cotinha, só fazia com ela, só queria com ela, só gostava com ela, adivinha o quê? E tem mais, saindo dali, iria direto para uma loja de cuecas. Machista consulta a mulher sobre a cueca que deve usar? Pois é, o Terêncio consultou. E a Maricota, empoderada, foi firme e taxativa. Jogasse fora aquelas cuecas cavadas, apertadíssimas, que faziam a barriga pular o elástico frouxo e despencar, feito cascata, em dobras sobre dobras. Pro lixo também as coloridas, as estampadas, principalmente aquela horrorosa com o distintivo do Corinthians em lugar tão inapropriado. Também as descoradas, as esgarçadas infestadas de bolinhas da máquina de lavar. Comprasse cueca do tipo boxer, preta, branca ou cinza, mas com um detalhe: ela deveria valorizar o que a natureza perversamente lhe negara. Aproveitasse e comprasse também bermudas, camisetas, calças, chinelos, cortasse os cabelos, fizesse a barba, as unhas pretas e um perfuminho lhe cairia bem. Ele anotou e tudo, faria, afinal os dois precisavam cuidar do apetite, que o arroz-feijão-sem-mistura não estava descendo mais. Tentou, mas cadê coragem para pedir à Maricota que jogasse no lixo a calçola bege da vó. Esperava que, com a compra generosa das novas calcinhas, o cardápio mudasse.
Uma noite atrás da outra, durante um mês, as cuecas novinhas agarraram as calcinhas sensuais e a cama continuou a mesma merda. Não teve mais bobes enrolados, calçola bege, cueca esgarçada, tampouco furada, mas perfuminho e muita vontade de acertar. Ainda assim, sobre o lençol estendido feito toalha o arroz-feijão-sem- mistura permaneceu.
Chateado, o dedo do Terêncio folheava uma revista. Do nada, foi atraído por uma reportagem que parecia ter sido escrita pra ele. Quanta ingenuidade! Dá pra imaginar quantos Terêncios e Maricotas existem por aí? O redator dizia aquilo que todo mundo sabe, mas só sabe. Que o sexo está dentro da cabeça e não fora dela. Que o desejo está na conversa boa e na cumplicidade do casal todos os dias. Que o tesão nasce das mãos dadas e das risadas compartilhadas.
Se não for assim, esquece a cueca, esquece a calcinha, esquece a pílula, não há doce no mundo que vire pudim!
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.