Lembro-me da época em que as pessoas diziam para as crianças que se o comunismo entrasse no Brasil, as casas seriam divididas entre várias famílias, e todos teriam que morar juntos. Além disso, o governo iria construir milhares de prédios residenciais, tudo igualzinho, com centenas de apartamentos e aquele monte de gente habitando o mesmo espaço, exatamente como víamos nas imagens da União Soviética. Por algum motivo, a ideia de um monte de gente no mesmo local parecia ser ruim naqueles tempos: o final dos anos 70 e início dos 80. Além disso, dizia-se que haveria miséria e fome. O tempo passou, o comunismo não veio, o nacional-desenvolvimentismo tupiniquim dos generais do regime militar foi deixado de lado, e recebemos o presente do neoliberalismo.
O Brasil se tornou um país neoliberal, apesar dos três presidentes que conseguiram enxergar um projeto de país: Fernando Henrique, Lula e Dilma. O Itamar eu não sei, pois era do PMDB, que na época já havia se tornado um partido que aceita qualquer coisa. Mas foi ele quem lançou o Plano Real, com FHC de mentor. Collor e Temer dançaram o samba da precarização da sociedade em nome de um salto na economia - um salto que nunca veio, a despeito dos "n" planos e reformas que aconteceram ou foram planejados por seus governos. O fato é que estamos esperando a reforma trabalhista criar empregos desde 2017, esperando que os salários aumentem por causa da queda dos direitos trabalhistas desde 2017. Agora, vamos esperar que algo aconteça de bom por causa da reforma da previdência, mas é melhor esperar sentado.
O maior gênio da economia neoliberal foi o cara que inventou a frase: "Não existe almoço grátis". Não sei se foi o Reagan ou se foi aquele ser que ganhou o prêmio Nobel resumindo o mundo em um lápis. De qualquer forma, estavam todos ganhando muito dinheiro para falar essas coisas. Parece tão claro e certeiro que alguém vai pagar pelo benefício que o Estado dá aos mais necessitados - e quem vai pagar é você! -, que nos últimos anos até a classe média-baixa passou a acreditar que não tem que "sustentar vagabundo", como se diz por aí. A frase é tão eficiente, que a gente esquece que o almoço, o jantar, o café da manhã e a ceia continuam, repetidamente e cada vez mais, sendo servidos para bilionários comprarem jatinhos, para dar bilhões em isenção de imposto para grandes industriais, para incentivar a produção de carvão e outros minérios, para ajudar os bancos privados e, substancialmente, para perdoar dívidas bilionárias desses setores. O agro pode ser pop, mas ele não alimenta o Brasil. Tudo é exportado.
Hoje caiu o refis para quem tem MEI; amanhã, edita-se um novo refis para quem sonegou bilhões em algum feudo econômico cujo baronato tem influência no Congresso, no Executivo, ou sabe-se lá onde. Mas nada se compara aos bancos, e isso não é exclusividade do Brasil. "Banco nada de braçada", disse-me o funcionário da instituição em que eu tinha conta até outro dia, quando fui reclamar da cobrança de um tal "recadastramento automático dos serviços" - sendo que ninguém me ligava nem pra saber se eu ainda morava no mesmo lugar. Existe almoço grátis mais grátis que esse?
Mas é certo que FHC, Lula e Dilma tinham, pelo menos, um projeto de país na área social e econômica. Por isso afirmei acima que o neoliberalismo nos foi presenteado "apesar" deles. Eles tentaram assegurar os direitos do povo até um certo ponto. Fracassaram? Não sei se foi por incompetência, conivência, medo, interesse ou falta de força para enfrentar o lado oposto, que vem sempre com muita grana e análises premonitórias das taxas da bolsa, quase sempre fajutas e que nunca se concretizam.
Já vai longe 1980, e o comunismo não veio. Mas vieram a MRV e as centenas de empresas análogas. Da mesma forma que na URSS, elas construíram milhares de apartamentos todos iguais, onde um monte de gente convive no mesmo ambiente. O capitalismo neoliberal nos deu os apartamentos da União Soviética que todos temiam. Também trouxe, manteve ou incentivou a miséria e a fome. Mas no caso dos apartamentos há muitos benefícios, pois uma das coisas que o comunismo levou aos habitantes da URSS foi criar lugares dignos para eles morarem. Assim como milhões de brasileiros compraram a primeira casa em um condomínio desses, milhões também deixaram de morar em comunidades sem qualquer tipo de urbanização para viver em residenciais abraçados por programas de governo que proporcionaram essa mudança, mesmo que insuficiente.
Hoje, já existem até as versões mais sofisticadas dessas moradias ditas populares. O medo do comunismo continua atemorizando o Brasil, mas pelo menos as pessoas perderam o temor de viver todas juntas. Talvez seja a hora de a gente ter medo do capitalismo neoliberal, de suas consequências, de seus efeitos, do butim que o sistema financeiro internacional praticou no mundo todo desde 1980, mas que graças a algum deus (que não é o nosso), já retrocedeu e foi derrotado na maior parte do mundo. Parece só sobreviver com força aqui.