Mistanásia, você conhece esse termo? Tomei conhecimento quando da leitura do livro 'A morte social - mistanásia e bioética', do querido bispo Luiz Antonio Lopes Ricci - editora Paulus. Conceito: morte miserável, infeliz, precoce e evitável.
Segundo dicionário informal: "mistanásia é um termo pouco utilizado, que representa a morte miserável, antes da hora, conhecida como eutanásia social".
"Por falta de recursos, por exclusão social e econômica, os pobres que não tem acesso ao essencial para a sobrevivência, aos cuidados de saúde, levam uma vida sofrida e morrem prematuramente."
Você, como eu, não deve conhecer essa palavra esquisita, mas com toda certeza conhece muitos casos de morte miserável, precoce e evitável.
Tenho assistido, estarrecida, a muitos casos, com os moradores de rua, que vivem aqui no bairro, perdemos, entre outros que não eram tão chegados, um veterinário que não lembro o nome; o Waldir, Miro, Walacce, Marquinho, Emerson e o Adalberto, os quais tínhamos carinho e respeito, e sofremos com suas partidas tão precocemente.
Não vou aqui questionar o que leva uma pessoa aos vícios e desencantamento com a vida. No livro, o 'Futuro da Humanidade', de Augusto Cury, muitas são as causas apontadas, com pessoas de todos os níveis sociais, que acabam na vida miserável e sofrida, das ruas. Além dos vícios, o desemprego, a falta de dinheiro para pagar aluguel e despesas da casa, contribuem também, para o aumento de pessoas nas ruas.
As causas responsáveis não serão resolvidas enquanto os governantes não se empenharem em dar condições de moradia, educação, saúde e capacitação laborativa, temos falta de mão de obra qualificada.
Voltando aos casos de mistanásia, o que poderia ser feito, eu na minha insignificância, procuro atender os pedidos, que são muitos, tento amenizar a fome e sede, mas sei que isso não vai resolver e nem melhorar a vida sofrida deles, sei que o que faço, é muito pouco. O serviço de abordagem e acolhimento, apesar da boa vontade e dedicação dos funcionários (que são verdadeiros anjos), não consegue atingir o objetivo proposto, tirá-los da rua.
As dificuldades no atendimento são muitas, a maioria deles não querem ir para o albergue - alguns têm verdadeira aversão, não entendo os motivos, gostaria muito que houvesse um estudo aprofundado, sobre o assunto; seria pela imposição de regras, pela obrigação do banho, porque não pode levar animais?
Não sei, brigo muito com eles, pois não entendo como podem optar em ficar nas ruas, sendo que podem ser acolhidos, onde terão banho, comida e teto, até conseguirem encaminhamento para tratamento ou retorno ao município de origem.
Durante o auge da pandemia, foi instalado em um estádio de futebol, um abrigo para eles, na região do Geisel, que recebia até os animais de estimação, eles gostaram muito, mas infelizmente foi fechado, talvez o futebol seja mais importante que os "moradores de rua".
Perco muitas noites de sono, tentado encontrar uma solução, penso que o trabalho na terra, o contato com a natureza, estímulos e oportunidade, oferecidos num sistema como uma escola agrícola, acompanhada por professores , profissionais da saúde, religiosos ecumênicos, que respeitam a opção de cada um, que possam orientá-los e juntos, formarem uma grande horta, que possa servir a eles, a merenda escolar, o bom prato e outras entidades assistenciais; traria dignidade e condições melhores.
Um espaço rural não muito grande, com área para plantio, um alojamento, refeitório, sala de estudos, equipamentos e materiais, poderia ser conquistado através de verbas destinada a projetos sociais ou fundo perdido, federais, estaduais e municipais, além da participação de igrejas, empresários, comerciantes, etc.
Mas se esse projeto for inviável, por falta de interesse político, temos que dar mais dignidade para eles, vi em uma reportagem, um projeto que leva banho, roupas limpas e lanches, através de um banheiro, com caixa d'água acoplado em uma camionete, que uma ONG desenvolve, não deve ser tão caro, que não dê para o Poder Público fazer, é certo que não vai resolver, mas vai dar um pouco de dignidade.
Espero que minha pequena e singela sugestão, possa trazer à tona, discussões sobre a mistanásia e encontrar soluções que possam diminuir esses casos de mortes previsíveis e evitáveis., que trazem tristeza e vergonha para a humanidade.