Tribuna do Leitor

As pedras de um líder?

Olynda Aparecida Bassan Franco - Academia Bauruense de Letras
| Tempo de leitura: 4 min

O que dizer de um menino chamado Rolihlahla que significa "aquele que puxa os ramos das árvores". Quer dizer, um grande encrenqueiro.

Levantava-se cedinho do chão duro, de sua esteira de palha, sorvendo um café magro e mingau. Tendo que ordenar as as ovelhas, levava -as ao riacho para a pastagem. Sempre atrás do rebanho para não perder nenhuma, como um bom pastor. O som de uma pedra jogada ao longe a traria de volta ao caminho, ao bastão do guia. Ele e seu amigo Mackson, inseparáveis, exploravam a pradaria, as montanhas misteriosas. Tão tenra idade, em seus 8 anos sentiam-se experientes, seguindo a tradição dos pais. Confidentes, sentavam-se nas pedras cobertas pelo musgo, tingindo os poucos calções que os vestiam, pescando com seus anzóis feitos de arame, com iscas de minhocas de algum trecho de terra macia, ou pegando os girinos com as mãos, em competição. Nas pedras pelo caminho desenhavam a vida livre de criança. Escorregavam nas pedras lisas e chatas das encostas. Desciam e subiam, subiam e desciam, enquanto o rebanho ruminava a relva. Senhores do tempo.

Certa noite foi à venda comprar fumo para o pai e notou olhos brilhando na penumbra da casa do Senhor. Disse-lhe um oi. Os olhos não se movimentaram. Já em retirada, ouviu passos. O menino, de pés esquisitos chegou perto da cerca, timidamente. Rolihaha pegou uma pedrinha e jogou além da grade. O menino a jogou de volta. E nesse ping pong, foram crianças de pés nus e de pés esquisitos. Ele usava sapatos nas pedras do casarão.

E o tempo passou e chegou a escola - sem pai, protegido pelo tutor calçou sapatos, mesmo desengonçado, causando risos, vestiu roupas do Ocidente com suas histórias. Não eram os relatos que o seu pai contava em volta da fogueira. Tinham a versão dos brancos colonizadores. E não a dos colonizados. Um outro olhar. Via a ancestralidade de seu povo derreter como pedras de açúcar nas águas dos opressores. Ele, tinha como missão, preservar em suas mãos a unidade política, social e religiosa das tribos. Na primeira escola recebera um nome novo. Não respondia mais por Rolihlahla, mas persistia em ser encrenqueiro no sonho de ser livre e ter a paz na liberdade da gente africana. Quase conselheiro do Rei, predestinado a ser sucesso, respeitado, seguia seu destino. E gostava. Estudaria várias disciplinas. Tinha seus planos. Não pensava em utopias. Eram reais. Foi preparado para ser líder em sua tribo e nas boas universidades.

Os ventos sopravam a favor até acontecer o primeiro fato que tingiu o seu caráter, qual o musgo da pedra da infância, ferindo seu princípio de democracia, exigindo coerência na tomada de decisão. Abandonou carreira, status, fama e se lançou às terras de sua África do Sul ao encontro do seu povo vivendo no caos de suas limitações, como cidadãos. Tomou consciência das sombras que embrulhavam a alma de um rosto triste, sem o direito de ir e vir. Agora, as pedras já não eram de lazer, de descanso. Eram pedras sofridas, com as arestas pontiagudas, rasgando a pele da injustiça, da cor escura, da Cultura. Uma terra árida que sonhava com a equidade, como a alma livre das crianças e suas pedrinhas de brinquedo, sem a sombra do "apartatheid", da segregação. Liberdade cerceada, preso, com sonhos perenes da metamorfose de um regime político, social e religioso. O poder prende o corpo, mas não as ideias convictas. Estas voam como pássaros no infinito céu de uma nação. Trancafiado movimentou reformas na promoção humana, na qualidade de vida dos pretos. Também na prisão de Robben Island acontecia o "apartatheid" entre pretos e mestiços. Depois de tempos sombrios, ele e os presos políticos transformaram os dias daquele cárcere, que já não eram todos iguais. Melhor alimentação, respeito, presos estudantes em regime de EAD (Ensino a distância) obtinham seus diplomas, outros alfabetizados. Antes, só haviam as pedras trituradas nas marretas, as pedras de corações endurecidos pela arrogância de um sistema. O grito de - justiça, justiça - ainda que lenta, salpicada de sangue ia chegando... chegando... Após 27 anos, e não um dia, as pedras alisaram-se como aquelas do escorregador da infância e rolaram no coração da esperança, da equidade. Ele voltou em 11 de fevereiro de 1990. Sem acordos, sem concessões. A paz é coletiva, solidária, generosa. - "Ubuntu" - Nunca deixou de ser um ícone, um líder, um testemunho da verdade. Perseguia o fim de um regime de segregação racial na África do Sul, onde sua alma repousasse. Seu nome - Nélson Mandela. Pedra angular na luta pela vida. Pedra no sapato de um sistema separatista de vidas.

Fonte - "O menino Nelson Mandela", de Viviana Mazza.

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