Sou sinal dos tempos modernos. A negligência dos sucessivos governantes permitiu que eu crescesse. Emprego muita gente. Só no Brasil, faço deputado, diretor de presídio alimentarem a carreira do pó e das armas. Gente onde você menos imagina. Antigamente, um Opala de sirene rondava respeito na rua de pés descalços. Sem coragem no enfrentamento do crime, o que fizeram os políticos?
Domesticaram a classe média a panfletarem passeatas, a se cercarem de muros altos, concertinas e alarmes. A elite, blindada no sossego é claro, condominia-se, bebendo uísque demorado pelo mal-do-mundo. Isso os enobrece e os absolve. Sabe de uma coisa...Gosto do teu espanto, da comoção breve com que a lágrima percorre teu rosto. Aprecio a rapidez com que você enterra teus mortos. Teu choro, véu difuso, me transmite a verdade das carpideiras. Chacinas, Covid-19, Brumadinho, Petrópolis, e você? Sim, você!
Do que sou feito? Da tua vaga e perecível perturbação. Já participei de Hiroshima, Auschwitz, Golfo, Afeganistão e Iraque. Vi de todos os ângulos a queda das torres em 2001. Fiz você matar em nome da democracia, da razão. Quanta bobagem! Você me lembra de Édipo à procura dos culpados pelas pragas de Tebas, quando o culpado era ele próprio. Diversas vezes já lhe mostrei isso. Durante a Guerra Fria, proporcionei que a América esgarçasse embaraços para governos seculares e reformistas se fixarem no Oriente. A América, ah!, 'Maktub', América!
Fiz você acreditar numa Nova Ordem Mundial. Padronizei a vida e a morte num intervalo desabrido de insegurança. Abraços gritados. Choros em série. Histeria. Rezas obrigatórias. Inaugurei a arma em estado alfabético: a bomba H. Permaneço no gatilho, no disparo, no estouro. Sou a convocação para matar. Por isso, interrompo a vida daquela mão envelhecida que segura o neto num afeto de despedida. Aniquilo resmungos incontidos de quem lê Dostoiévski, Tolstói certos de compreender a natureza humana. Abrevio o dia daquele que rezou e que antes de vestir a farda, prometeu à mulher que voltaria. Saiba que tua leitura, tua indiferença ao horror estão atrasadas
Da paisagem inquietante, ao fundo, o céu nublado dialoga com prédios danificados. Rejeitando a luminosidade dos tiros imoderados, as ruas exibem destruição, desespero e socorro. Incessante busca por abrigos divide a cena com militares ucranianos combatendo o avanço das forças russas. Tanques, mísseis. Dormia e acordava-se com o anúncio de alerta das forças nucleares. Assim, materializei desabastecimentos. Graças a mim, desestabilizei tua fé.
Aliás, do que é feita tua fé? Pra mãe cujo filho não voltou, da mãe empalidecida de pensar; de governantes que insistem viver na vanguarda de uma guerra sem nome, sem glórias, talvez exista uma fagulha de esperança, uma lufada de renúncia. Enquanto isso, segundo após segundo, a vida se esvai, gestando novas mãos que possam, de algum lugar, te alcançar neste mundo, em desterro, em que tudo é medo.
O autor é professor de Língua Portuguesa.