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Mamãe, falei...

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Não tem Dia do Homem, mas Dia Internacional da Mulher tem. E tem o do índio, o da comunidade gay, o da consciência negra... Enfim, de todos que estão levando porrada. No último 08 de março, muita poesia ruim, flores de enojar narizes e uma enxurrada de frases melosas homenagearam as mulheres. Se bem lido, esse dia da mulher pode muito revelar. Embaixo da maquiagem verbal, dá pra ver o quanto é feia a cara machista.

O procurador-geral da República, cheio de boas intenções, bem podia ter enfatizado o real valor das mulheres e se mostrar solidário na luta difícil que travam. Não o fez. Resolveu destacar o glamour do detalhe vaidoso tão fora do contexto: "o prazer de escolher a cor das unhas e o sapato que vão calçar."

Nesse mesmo momento, um zap do deputado Arthur do Val foi vazado. Encantado com a beleza da mulher ucraniana, o parlamentar cochichou: "Elas são fáceis porque são pobres." O deputado não conseguiu ver o corpo que sofre os horrores da guerra, muitas vezes estuprado como forma de humilhar o vencido. Viu apenas a facilidade de comprá-lo para consumo por quilo. Depois do vazamento do áudio, veio a obrigação de se defender. Nessa hora, a emenda costuma emporcalhar o soneto. Disse que "aquele" que disse "aquelas" besteiras não era ele, mas um "moleque". Sabe como é, né? Conversa vazada do zap, papo entre amigos, conversinha sacana de churrasco... Só isso.

É exatamente aí que está o ovo da serpente. Somos especialistas em cultivar a dupla moralidade, a hipocrisia de se mostrar e de se esconder. Dependendo do lugar, sou assim; mas em outro, sou completamente diferente. Hora de perguntar. Então, qual é a minha verdade? Aquela que falo no grupo fechado dos meus iguais? Ou aquela que de terno e gravata defendo para todo mundo ouvir? Não dá pra dizer as duas, porque uma nega a outra. Como posso dizer que não sou homofóbico, se, à boca pequena, defendo porrada pedagógica nesses "veados? Como posso caminhar para o sul e para o norte ao mesmo tempo? Onde, afinal, está a minha verdade? No escurinho protegido ou sob as luzes da ribalta?

Trump também falou da facilidade que tinha com as mulheres: "Quando se é uma estrela, elas deixam você tocar." Vazado o áudio, o "astro", assim ele se define, esfarrapou a desculpa: bobagem, apenas "uma conversa de vestiário masculino".

Quando xingamos o outro, deixamos transparecer o podre que existe em nós. Foi o que fez Arthur do Val quando acusou o padre Júlio Lancelotti de ser um "cafetão da miséria". O trabalho do padre de 73 anos é amplamente conhecido por socorrer a população de rua por mais de 38 anos, em São Paulo. Segundo o deputado (duplo), o padre é duplo: aparenta ser um homem da caridade, mas, no fundo, é um explorador dos miseráveis. O parlamentar joga no padre o podre que tem em si. Tanto é que foi à Ucrânia com o pretexto de missão humanitária (tal qual o padre) e voltou vangloriando-se de que as mulheres lindas são fáceis por serem pobres. Não seria essa a exata definição de um cafetão da miséria? Impossível melhor exemplo de opressão de classe e de gênero.

O deputado sempre usou, como moldura do que fala, a expressão "Mamãe falei". Define, assim, o moleque que deixa escapar, no almoço de domingo, o que não podia falar. Na mesa, todo mundo ri do menino que já aprendeu o jogo da duplicidade. Sim, as coisas escapam. Vazam-se áudios, vídeos de nudez, mensagem de celulares: hora da extorsão. Pudera, tudo é duplo: a santa e a prostituta, o parlamentar e o cafetão, a sala e o banheiro... A gente sabe que a merda gosta do ventilador. A boca que lambe por cima é a mesma que morde por baixo.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

 

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