Ainda trago comigo recordações do tempo em que precisei morar na casa de meus avós maternos, de origem italiana. Segundo meus pais, ao serem transferidos à trabalho para o exterior, acharam melhor eu ficar, pois teria dificuldades com o idioma na escola e com a própria adaptação social, devido à minha idade.
Minha avó Luzia, era uma pessoa carinhosa e acolhedora. Vivia me paparicando e me chamando de Carlinhos. Meu avô Domingos, um pouco mais sério, não gostava de brincadeiras e nem tão pouco de barulho. Por ser vigilante noturno, de uma instituição de ensino (Escola Senac), ele chegava todo dia bem cedinho, tomava um cafezinho e se deitava para dormir. Daí, o pedido de minha avó - Vai brincar no quintal e não faz barulho!
O que nem sempre acontecia, principalmente quando eu resolvia brincar de bola e acertava a janela do quarto. Minha avó tinha o costume de levantar cedo, para preparar o café da manhã, antes que meu avô chegasse do trabalho. Apesar de ter um fogão a gás, ela não dispensava seu tradicional fogão à lenha. Do meu quarto, podia sentir o aroma do café, despertando meus sentidos, mesmo camuflado debaixo das cobertas.
Como todo adolescente, nunca fui adepto de levantar cedo. Como meus pais, minha avó também, quase precisava derrubar-me da cama. Todo dia, era uma correria para se vestir, tomar café e conseguir chegar na escola, antes de começar a primeira aula. Mas como diz o ditado popular, "o hábito faz o monge", de tanto ser chamado, resolvi um dia tomar a iniciativa de levantar-me sozinho.
Para surpresa de minha avó, apareci na porta da cozinha bocejando - Buongiorno nonna! Admirada, ela me olhou com cara de espanto e perguntou - Deu formiga na cama? E desde então, passei a tomar o café da manhã com ela e desfrutar da sua companhia. Como também, do cheirinho do pó de café sendo coado e do pão francês, que meu avô trazia da padaria, ainda quentinho, com a manteiga derretendo sobre suas fatias.
Quando retornava da escola, lá estava meu avô acordado, sentado no sofá lendo o jornal e minha avó, na cozinha terminando o almoço. Quando ela me via entrando exclamava - Hoje têm panqueca de carne, Carlinhos! Rapidinho, tirava o uniforme e voltava para almoçarmos juntos. Meu avô, gostava de contar histórias.
Se dizendo "janista", dizia que o candidato a Presidência da República Jânio Quadros utilizou uma "vassoura" como símbolo de sua campanha eleitoral. Propagando em seus comícios, que se eleito fosse, varreria a corrupção na política brasileira. Eleito em 1960, renunciou depois de apenas sete meses da sua posse. Segundo meu avô - Jânio Quadros, tropeçou na própria vassoura, ao tentar varrer os corruptos. Assim, depois de ouvir e observar o hábito, de meu avô narrar histórias, acabei de forma involuntária, pegando gosto pela escrita e pelos estudos de um modo geral. Foram anos agradáveis, morando com meus avós maternos. Minha nonna, gostava de cozinhar. Sempre no final de nossas conversas, tinha um quitute para saborearmos.
Passado alguns anos, meus pais retornaram do exterior e eu voltei a morar com eles. Atualmente, morando sozinho, não tenho mais a companhia de meus pais, Nelson e Anna. Nem tão pouco, de meus avós, Domingos e Luzia. Daquele tempo, restaram apenas recordações e muitas saudades, ao revê-los nos porta-retratos, espalhados pelos móveis do apartamento.
Mesmo privado de suas presenças, ainda os tenho comigo, como herança de uma família unida e feliz. Com certeza, é o suficiente para começar bem o dia.