Tribuna do Leitor

Loas à velhice

Joaquim Eliseo Mendes - Professor aposentado e Membro da ABLETRAS
| Tempo de leitura: 3 min

A minha vida etária, muito embora eu não me lembre de todas, teve as fases de anjinho, nenê, criança, adolescente, adulto, meia idade, velho e nonagenário; aquela na qual me encontro e que também muitos têm a oportunidade de alcançar enquanto que outros, infelizmente tem-na interrompida por ser vontade de Deus. Mas ninguém foge desta realidade, seja mendigo ou bilionário, empregado ou patrão, desconhecido ou importante, famoso. Ninguém sai desta trajetória de vida humana porque não existe percurso paralelo.

Em outras palavras, eu, consciente e benquisto nonagenário pela vontade divina, encontro-me na geração "Z", a última que é também carinhosamente tratada entre nós mesmos, como a fase do "comdor", "ondedói", "veiera", "velhice" , "fim da vida" assim como outras expressões regionais que devem existir.

Muitos fatos ou situações evidenciam o seu início como os passos ou o andar, de rápidos nas caminhadas, no trabalho, afazeres e nas brincadeiras, para mais lentos, arrastados, trôpegos; a fala, de vigorosa para mais lenta e de baixa sonoridade. As dores, quando ocorrem, às vezes leves e outras incrementes vagueiam pelo corpo como temporais, persistentes e localizadas. Eu tomo alguns comprimidos ao dia; no entanto sei de pessoas e tenho mesmo conhecidos com a minha idade e mais que não tomam; "nada" como dizem orgulhosamente. Quanto à cabeça, uns vão mais longe, enquanto que outros, infelizmente, não. Muitas pessoas, tanto homens como mulheres temem a velhice querendo afastar ou retardá-la como se ela fosse um infortúnio, uma condenação final, uma maldade destinada ao homem, não procurando descobrir o seu lado belo e reconfortante que nenhuma outra oferece como o número de dias atravessados ou vividos, imagens visualizadas, sons ouvidos, família formada enfim a experiência de vida. Como aconteceu no caso de duas pessoas que lado a lado trocavam ideias; uma delas, nova em idade disse "eu sou tido como um gênio nesse assunto e ninguém conhece mais"; mas o humilde velho que mal terminou o curso primário replica "mas você não tem e viveu os meus dias, não viu o que eu vi; não escutou o que eu escutei, não viveu e fez amizades com outras pessoas como fiz". Sem sombra de dúvida este idoso é portador de autoestima não se dobrando, postura que o colega de idade e geração quase sempre desconhece e assume. Também tenho certeza de muitos idosos que estejam lendo ou escutando a leitura desta matéria em virtude de deficiência visual se manifestem contrariamente ao lido e ouvido afirmando "é bonito escrever mas não é ele que está nesta cama sofrendo". Entendo e respeito porque minha esposa, também nonagenária é cadeirante. Não conheço todos os problemas de saúde que possam atingir um idoso com desdobramentos para a família; entendo e respeito, no entanto sua grandeza e respeito não podem ser esmaecidos. Todo aquele que se aproxima do leito do idoso enfermo deve sentir pelo mesmo, amor e respeito pelo que viveu, viu e até onde chegou. Não me baseando em livros e discussões sobre o tema mas em minha vivência diária tenho constatado o respeito que a nós idosos vem sendo dispensado, tanto nos curtos como nos longos momentos. Reparem. Pensem. Avaliem. Seja por um motorista no cruzamento de uma esquina ou travessia de uma rua; no cruzar com jovens que nos cumprimentam, com aqueles que nos servem nas compras e nos bancos; enfim no dia a dia, fora de nossa família.

É gratificante saber-se admirado e respeitado. Hoje o idoso tem um papel participativo na sociedade saindo daquele bordão que dizia "lugar de velho é em casa" porque sua experiência tem sido e sempre deverá ser considerada. A experiência do idoso é uma riqueza em todos os sentidos e dimensões. É necessário e importante que ele se redescubra porque tem muito a oferecer pois aprendeu na vida com a idade que nem todos têm e conseguem atingir.

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