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Odorico, presente!

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

"O Bem-Amado", peça escrita por Dias Gomes em 1962, faz um perspicaz retrato do funcionamento da política brasileira. Sucupira, cidade fictícia da trama, é metáfora do Brasil. Odorico Paraguaçu, caricatura do típico político brasileiro. Fazendo uso do jeitinho brasileiro, ele desvia o dinheiro da educação e das obras emergenciais para conseguir concluir aquela que será a sua maior obra pública: a inauguração do tão prometido cemitério de Sucupira. A obra do cemitério, suntuosa, é exemplo da ineficiência do poder público capaz de elencar projetos que não são propriamente uma necessidade da região.

No país de Odoricos, nada seria diferente. A imagem e a fala são cuidadosamente trabalhadas. Sai a barba desgrenhada dos olhos diminuídos atrás dos óculos pesados. Desabotoa-se o paletó sisudo. É a vez do rosto giletado em harmonia com o corpo das cores joviais. Braços que radicalizam atos? Sem chance. É a vez do ouvido de presteza em conversas descansadas com abraços e apertos de mão, não deixando passar a oportunidade de mostrar sorriso acolhedor. No discurso, palavra por palavra penteadas, gesto por gesto ensaiados. Na engenharia desse candidato, contratam-se marqueteiros hábeis, capazes de entregar aos eleitores frases de efeito, verbos de aluguel. Para tal, cafés demorados em promessas, bares, pastéis em feiras com cheiro de acordos dilatados. Tudo com prazo de validade definido rumo ao poder. Eleitos, os gatos são pardos. Assim, Sucupira se supera na confecção de mais candidatos Odoricos, cujo expediente vocacionado é a fustigar verdades reveladoras.

Jornais divulgam que o MEC, num processo de compra de ônibus escolares, oferecia até R$ 480 mil por unidade que valia, no máximo, R$ 270mil. Em outra canetada, o mesmo MEC liberou R$ 26 milhões para a compra de kits de robótica com sobrepreço para escolas de pequenos município de Alagoas. Um escandaloso agravante: a maioria das escolas que receberam os equipamentos de robótica nem sequer têm internet e água encanada. Faminta e em ano eleitoral, a máquina administrativa sabe girar. O MEC, novamente o MEC, autoriza a construção de 2 mil escolas sem a respectiva dotação no Orçamento, em afronta escancarada às leis orçamentárias e de responsabilidade fiscal. São as "escolas fake", destinadas a enfeitar os discursos de campanha. Coerente, as escolas de fachada é a mais verdadeira tradução da fachada de um governo.

Em closes compungidos, num ritual consentido, Odoricos sequestram esperanças. Eles são práticos. Maldosos, sujos e o diabo somos nós que os questionamos de um dever surdo, nós, domesticados em pedagogias de cidadania eleiçoeiras, nós, descrentes, dispostos a não aceitar flores de plástico para não enganar nossa terra; nós, é claro, inconvenientes, dispostos a mostrar a ferida exposta. Maldosas são as crianças, os alunos mais carentes, segregados pela miséria digital de um mundo cada vez mais tecnológico. Maldosos são os alunos que convivem com o transtorno dormido de 3.500 obras atrasadas, construções, ampliações, reformas de escolas, creches e quadras esportivas, desperdício de R$1,3 bilhão. Maldoso é considerar a educação uma questão inadiável.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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