Tribuna do Leitor

Permitido pisar na grama...

Carlos R. Ticiano
| Tempo de leitura: 3 min

Em tempos de decisões, em que os campeonatos de futebol vão chegando em suas últimas rodadas, um jogo pode representar ao time vencedor o título de campeão e ao time perdedor, apenas o vice-campeonato. Nessas horas angustiantes, o que diria o gramado para os vencedores e perdedores? Na vitória ou na derrota, sou solidário a vocês. Aquele imenso e bonito gramado, todo aparado e demarcado, com a finalidade de permitir aos jogadores, que a bola, durante o jogo, deslize redondinha de um lado ao outro. Em campo, vinte e dois jogadores estrategicamente posicionados, um árbitro e dois bandeirinhas. O estádio, literalmente tomado pelos torcedores.

O juiz apita e o espetáculo têm início. A bola começa correr de pé em pé sobre o gramado que os recebem de braços abertos, disposto a ajudá-los nos passes, nos dribles e nas finalizações ao gol adversário. Mesmo sabendo, que a chuteira muitas vezes, chuta mais grama do que a própria bola, o gramado não reclama. Sendo um terreno neutro, aceita e entende os carrinhos e as entradas mais bruscas, como parte do espetáculo, onde o jogador adversário acaba muitas vezes estirado no chão. Solidário, tenta a seu modo, ampará-lo, massageá-lo e acariciá-lo. Como quem diz - Levanta, ajeita a bola com carinho e tenta uma nova jogada!

Noventa minutos de angustia, tensão, expectativa, sem falar nos acréscimos e de uma possível prorrogação. Tudo isso, na tentativa de se fazer um gol para igualar o placar ou simplesmente passar à frente do adversário. Nesses momentos, as horas parecem não passar, ou passam rápido demais, para quem precisa fazer um gol. A grama, como um tapete macio, de forma acolhedora, convida os jogadores para um vai e vem de dribles, de empurrões e até de discussões mais acaloraras. Muitas vezes molhada, a grama proporciona uma falta mais próxima da área. Neste momento, a bola é beijada e acariciada pelo jogador, que a ajeita sobre o gramado, com todo carinho.

Numa jogada ensaiada, mais uma tentativa de fazer um gol e levantar a torcida, apreensiva nas arquibancadas do estádio. O chute saí mascado e junto com a bola, um tufo de grama. A bola sobe e desce em forma de arco, acertando o travessão. Alguns respiram aliviados, outros decepcionados. Não foi dessa vez. Não há controle emocional nestes momentos.

A grama, as vezes seca, molhada, lisa, áspera, macia, dura, se deixa moldar aos pés calçados pelas chuteiras. Em parceria com o vento, a bola muitas vezes, toma a direção oposta, para desespero do jogador. A grama se ajusta e se reinventa, para facilitar o vai e vem da bola.

Tudo é um mistério. A quanto tempo a grama faz parte daquele gramado? Quantas vezes secou e revivesceu ao longo da temporada? Quantos jogadores de diversos times e nacionalidades conheceu? São pétalas mágicas, que as vezes somem, como aquelas que ficam à frente do gol, mas nunca desaparecem de seu habitat.

Diante de um jogo, a ser definido nos pênaltis, ela se molda as superstições dos jogadores, que ajeitam a bola com todo capricho na marca de cal. Alguns jogadores vão fazer o gol, outros, para desespero da torcida, vão errar. Alguns goleiros, vão impedir o gol, num abraço fraternal entre a bola e o gramado. Ao final do jogo, o vencedor festeja, o perdedor chora e o gramado surrado se pudesse falar, diria - Senti em suas pisadas, muitas vezes desorientadas, o coração acelerar, a garganta secar, os olhos anuviar, as pernas fraquejar e o cansaço bater.

Nessas horas, diria o gramado - Foram momentos angustiantes e de esperança, mas outros campeonatos virão, e com ele, a oportunidade de serem campeão.

Vou estar aqui esperando por vocês.

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