Há várias perspectivas, ou âmbitos, em que podemos avaliar a questão da água. Pensamos sempre em políticas públicas em grandeza macro, em questões de controle, ou seja, envolvendo populações, governos, governança e outros entes e agentes. Mas sempre existe também o lado pessoal, o lado individual, e creio que muitos obstáculos para a implementação de políticas públicas são devidos aos problemas de entendimento da população sobre o que seja a água.
Por exemplo, por que temos enchentes? Em um momento, nós estamos discutindo crise hídrica, falando de problemas do Operador Nacional do Sistema, porque a nossa base energética é fortemente hidrelétrica, temos um grande aumento do custo dessa energia elétrica. Em outro momento, questão de algumas semanas, começamos a ter uma série de enchentes, uma série de catástrofes envolvendo justamente a água. Falta esse entendimento da dinâmica, a "hidrodinâmica da água", com o perdão do pleonasmo, dessa sazonalidade, do ciclo de chuvas e de secas. Isso, claro, está relacionado com questões primordiais, com a própria falta de conhecimento e a falta de educação de qualidade para todos. Se governantes não conseguem ter uma educação adequada, o problema é maior para levá-la para a população.
Quando alternativas são colocadas para o gerenciamento da água e tratamento de esgotos, começa a haver custos maiores, o que é óbvio. O aspecto econômico também integra a esfera do conhecimento. Uma vez que sujamos, poluímos, teremos um custo maior para recuperar essa água. Ao longo das últimas décadas, houve muitas mudanças nessa abordagem, tando do âmbito individual quanto residencial. Não muito tempo atrás era proibido, por lei, captar água de chuva, e hoje em muitos projetos de condomínios maiores, por exemplo, é obrigatória a captação da água pluvial.
Pode ser dado algum destino imediato ou mesmo servir para retardar o lançamento dessa água para evitar enchentes. Ou seja, já houve uma mudança de paradigma nesse aspecto. Nesses mesmos grandes condomínios e instalações maiores, com populações mais adensadas, torna-se obrigatório fazer tratamento dos efluentes ou do esgoto doméstico lá gerado, de uma forma preliminar, ou seja, não esperar coletar de toda uma região, fazer o distanciamento, e somente então fazer o tratamento. Essas miniestações são realidade, constituindo medidas interessantes, ainda que falta, primordialmente esse entendimento do que seja a dinâmica da água.
O autor é pesquisador da Unesp em Rio Claro.