Foi muito triste ouvir o comentário de uma pessoa próxima dizendo: esse Papa é o anticristo, é um comunista! Apesar de não ser católico, reconheço no Papa Francisco uma pessoa admirável, assim como o foram e são tantas outras pessoas de religiões diversas da minha. Por isso minha perplexidade maior: ouvir isso vindo de pessoa declarada católica.
Busquei dentro de mim qual seria a origem dessa autofagia religiosa, dessa revolta contra o líder de sua própria crença, contra suas palavras de amor, contra seu clamor por justiça social e igualdade, reproduzindo as palavras do próprio Jesus. A resposta não poderia ser outra: as convicções políticas. Convicções tão perturbadoras que fizeram católicos se aliarem ao que há de pior no meio evangélico. Convicções equivocadas a ponto de hoje aliarem-se a mercadores da fé. Convicções que os fazem, por idolatria, renegar seu líder maior, chamando-o de anticristo.
Lembrei-me da passagem do bezerro de ouro, dos ídolos, dos vendilhões do templo, da vinda dos falsos profetas que iludiriam a todos... (E isso, para quem não se deu conta, vai muito além de uma disputa eleitoral ou de uma divergência ideológica. Isso permeia o fanatismo, a idolatria e a submissão ao mal. Uma submissão que não exige joelhos dobrados, mas uma alma vergada à mentira). Se ontem diziam que o povo "da esquerda" era ateu e mesmo anticristão, o que dizer do "povo da direita", que se diz cristão mas rejeita os ensinamentos de Cristo? O que dizer de quem em nome de uma ideologia ou de um nome, se afasta do amor, para disseminar o ódio?
Você que se diz cristão já fechou os olhos no silêncio do seu quarto e se perguntou: se o Papa Francisco é o anticristo, comunista, quem seria Jesus para mim nos dias de hoje? Já se deu conta de quem tem sido seu "deus" atualmente? Não? Vou dar uma dica: quanto tempo você dispende por dia para ouvir e disseminar a palavra de Cristo? Agora compare com quanto tempo você dispende se "informando" e disseminando ideologias políticas de ódio nas redes sociais...
Infelizmente, em nossa realidade atual, a maior conversão precisa ocorrer dentro das igrejas (de todas as denominações), porque é lá que o mal vem ganhando espaço.... É de lá que vem o eco do secularismo nefasto, da ganância, do egoísmo, do dinheiro acima de tudo. Para aliviar minha tristeza e angustia em ver pessoas boas arrastadas nessa liturgia maligna, resta a alegria de poder um dia descansar em paz, com a certeza de que, como Paulo, "combati o bom combate (não com ódio ou com armas), terminei a corrida (sem deixar ninguém caído para trás), guardei a fé (no Deus único)."
O autor é colaborador de Opinião.