Tribuna do Leitor

Arrependimento sem mudança de sentimentos

Olga Neme Daré
| Tempo de leitura: 3 min

"Kandata, o implacável bandido, morreu sem arrependimento dos seus atos criminosos e a imutável Justiça Divina o atirou à região sombria dos eternos suplícios, o inferno. Durante muitos séculos suportou, indiferente, os tormentos do inferno. Um dia, porém, seu coração empedernido, foi tocado por tênue raio de luz do arrependimento.

Ajoelhou-se e implorou, em prece fervorosamente, a proteção e misericórdia do Senhor da Compaixão, Deus. No mesmo instante, surgiu-lhe a radiosa figura de um anjo que disse estar ali para salvá-lo, contanto que ele, durante toda a sua vida, tivesse feito uma boa ação, por mais insignificante que fosse. Ela, a ação, o ajudaria, agora, livrando-o daqueles tormentos, mas, nunca esperasse ver cessado os sofrimentos atuais, consequência do passado, se conservasse, ainda, os sentimentos de egoísmo, vaidade e inveja. Qual foi o ato de bondade que, em vida, praticou? disse o anjo.

Kandata, cheio de humildade e tristeza, não se lembrava de nenhum ato louvável, pois sua vida foi um rosário de crimes e infâmias. Mas, o anjo insistia, tentando fazer com que Kandata lembrasse de um ato verdadeiramente bom de sua parte e seria socorrido. Mas Kandata nunca havia feito nada de bom a nenhum ser humano. E aos animais, insistiu, mais uma vez, o anjo, tratou-os com crueldade, os seres fracos do mundo? Nesse instante, Kandata alegrou-se, pois lembrara de que, certa vez, ao atravessar um bosque, viu pequena aranha que procurava esconder-se entre a relva; desviou o passo e poupou a vida do animalzinho.

Pensou e perguntou ao anjo se valeu fazer isso. Respondeu o anjo:

-Esse pequeno ato de bondade é, sem dúvida, suficiente para tirar-te do inferno, pois é a própria aranha do bosque que te trará o único meio da tua salvação; ela vai lançar-te um fio e, por ele, poderás subir até o Onipotente.

Quase no mesmo instante, viu Kandata, com emoção, que um fio descia das alturas divinas até onde ele estava. Agarrou-se a ele e começou a subir, mas, olhando para baixo, notou que os companheiros de infortúnio procuravam, também, salvar-se, subindo pelo mesmo fio. Preocupado em que o fio não suportaria tanto peso, e, instigado pelo egoísmo, desejando, apenas, a sua liberdade, sem se importar com os outros, grita para os infelizes que se agarravam ao fio: - Larguem, miseráveis, este fio é só meu!

No mesmo instante, partia-se o fio da aranha e Kandata era, para sempre, restituído às profundezas em que tanto tempo sofrera tão duros castigos!

O fio salvador, forte bastante para levar ao céu milhares de criaturas arrependidas de seus crimes, rompera-se ao sofrer o peso do egoísmo que a maldade insinuara no seu coração! "

Malba Tahan conta esta lenda hindu em uma de suas obras: "Seleções".

Para quem não o conhece, Malba Tahan é o pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza; foi professor de Matemática no Rio de Janeiro, e grande figura intelectual brasileira que dedicou sua vida e talento à divulgação da cultura oriental, em língua portuguesa. É dele este conselho: "Estenda a mão aos que tombam e Allah (Deus), Clemente e Misericordioso, a Dele te estenderá. Ouça o que diz o Profeta (Jesus): só terás depois da morte o bem que em vida fizeres!".

 

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