Muitas séries audiovisuais de sucesso hoje são ambientadas nos anos 80. "Stranger Things", cuja nova temporada estreou recentemente, é apenas uma delas. A ênfase no resgate de vivências e temáticas dessa época está, em minha opinião, relacionada à migração tecnológica havida naqueles anos, partindo-se do consolidado analógico de então para o iniciante digital.
Tal saudosismo intrínseco tem fulcro na essência de nossos cérebros, que seriam analógicos em sua natureza. Ou seja, apesar do desenvolvimento artificial de um mundo digital, criado por nós mesmos, nossa mente ainda funciona de forma analógica, por gradientes contínuos e não por estados e saltos determinados. Entre o preto e o branco há muito tons de cinza; entre o 0 e o 1 do sistema binário, há infinitos outros números.
A nostalgia pelo passado e algumas dificuldades com o moderno poderiam indicar também que o cérebro humano é analógico na essência e precisou aprender - e mal - o digital. Talvez por isso a preocupação com o advento da inteligência artificial cause tanto embaraço, dúvida e até receio. Ela poderia nos dominar?
Por fim, registro que tais reflexões surgiram durante o programa "Sem Pauta e Sem Roteiro", transmitido em 29 de maio passado, em canal do youtube (https://www.youtube.com/watch?v=3aVUTnYQ1Ig/), apresentado por Diego Amaro e Abraão Santos, aquele colega Acadêmico, ambos historiadores.
O autor é pesquisador da Unesp em Rio Claro.