A diminuição da intensidade da pandemia de Covid-19 no País não se refletiu na redução de casos de depressão e ansiedade entre crianças e adolescentes. É o que indica tanto o monitoramento nacional feito pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com quase 6 mil jovens País afora, quanto a percepção de especialistas que alertam para uma crise de saúde mental nesta faixa etária.
Entre as razões apontadas por médicos e famílias estão as tensões geradas pelo retorno híbrido e presencial às aulas após até um ano e meio letivo de ensino remoto, as sequelas do longo período de isolamento social, a retenção de casos não tratados nos últimos dois anos e uma imersão ainda maior no mundo digital, com o tribalismo acentuado por redes sociais e jogos online.
Coordenado pelo psiquiatra Guilherme Polanczyk, o estudo acaba de ser publicado na European Child and Adolescent Psychiatry. Os 5.795 jovens foram monitorados on-line desde junho de 2020.
No segundo semestre daquele ano, 36% apresentaram sintomas de depressão e ansiedade, que flutuaram desde então, mas se mantendo nos mesmos níveis. Os "problemas emocionais", por exemplo, diminuíram entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, mas tornaram a aumentar em maio do ano passado, se comparados com o mesmo período do ano anterior.
Dentre os fatores associados ao aumento de ansiedade e depressão estão a chegada da puberdade durante a pandemia, a sensação de solidão, a rotina de sono inferior a oito horas diárias, a queda de renda familiar e o desenvolvimento de doenças ligadas à Covid-19 por pessoas próximas. A pesquisa só incluiu jovens com acesso digital, portanto, há subnotificação, elevando a dimensão da crise.
Polanczyk destaca que não há como comparar dados atuais com os de períodos anteriores à pandemia, por conta da escassez de pesquisas no Brasil. Ao mesmo tempo, o número insuficiente de consultórios e ambulatórios dificulta comparação empírica básica: eles estiveram e seguem lotados.
"Com os novos dados e o relato de clínicos, sabemos que há aumento expressivo de crianças e adolescentes com questões sérias nos consultórios. E não houve diminuição com a distensão da pandemia", atesta.
Durante a crise sanitária, jovens tratados em consultórios relataram não só o aumento da sensação - não mais subjetiva - de isolamento, como também sintomas similares apresentados pelos pais e os reflexos da transformação radical da vida escolar. São significativos os casos de violência entre alunos e com professores relatados após o retorno presencial às aulas, de dificuldade de concentração e de bloqueio nas provas.