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Bobeou, dançou!

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

No passadão, a gente sabia tudo porque o jornal e o rádio tudo contavam. Era assim no mundo das cavernas, quando a linguiça ainda amarrava os cachorros e judas ainda não tinha perdido as botas. Depois, lei da vida, progredimos. Veio a televisão que, além de contar, mostrava também. Mas não tudo, só o possível. Agora, Deus do céu, a vida perdeu os limites, a privacidade, a intimidade, a identidade, o pudor... A vida perdeu a vergonha e se escancarou. Culpa do celular que tudo vê, vaza e viraliza. Culpa ou mérito? Às vezes para o mal, outras para o bem, ele mostra tudo e qualquer coisa para o mundo inteiro, mesmo que seja alguém coçando o dedão do pé direito, em Liechtenstein, que eu não tenho a mínima ideia onde fica.

"Manda um nudes!" Pronto, a intimidade do capeta cresce num zoom gigante. "Manda um pix!" Pronto, o bandido, que diz ser meu filho, mas me chama de mãe e promete que, amanhã, o dinheiro me devolve. Pai, manda o resgate! Minha filha berra desesperada. Nessa ninguém mais cai (ou cai?), manjada demais. Que tentação, iPhone 13 por 2mil reais! O celular virou uma fábrica de golpes, nosso CPF, RG, endereço, data de nascimento, número de vacinas, eleitor do Lula ou do Bolsonaro, até o nome do nosso pet está anotadinho no bolso do golpista. Cada dia, um golpe novo, bobeou, dançou.

Pra fazer justiça, falemos também do lado bom do celular. Um procurador emputecido desferiu uma sequência de murros e pontapés na cabeça de outra procuradora em Registro (SP). Todo mundo viu e se escandalizou com o que o celular gravou. Pronto, o machão foi pra cadeia, sem celular, pra saber o que é bom pra tosse. Se esse fato fosse apenas contado, como faz o jornal, jamais causaria o impacto e a indignação que a "notícia mostrada" reverberou. Uma coisa é saber; outra bem diferente é ver. E nossos olhos já não aguentam ver tantas cenas monstruosas. Vimos, angustiados, o joelho assassino matar a garganta de George Floyd em Nova York. Vimos, revoltados, o nariz pobre e preto do brasileiro Genivaldo asfixiado no porta-malas gasificado da policia. Vimos, aterrorizados, o padre de Santa Cruz (SP) acelerar furioso e atropelar o ladrão, vulgarmente conhecido como "anjinho", que, nesse frio, roubou camiseta e moletom da Casa Paroquial da cidade. O anjinho está na UTI, Santo Deus!

De tanto ver, a gente não para de dizer: "Vi com os meus próprios olhos que essa terra há de comer!" Sim, porque essa gente, ainda que flagrada com a boca na botija (credo!), tenta sempre nos convencer: "Calma! não foi bem assim". "Espera, eu posso explicar!" Não, meu amigo, você não pode não! Contra "foto" não há argumentos. Agora, coisa que me intriga é que, mesmo sabendo o risco que correm, as pessoas continuam cochichando no traiçoeiro celular. É muita burrice! Políticos tagarelando propinas; amantes combinando encontros furtivos em motéis, bandidos planejando crimes... E um esgoto caudaloso não para de vazar merda dos celulares parlamentares de Brasília.

Raramente a gente encontra um político prudente e desconfiado como o Delcídio do Amaral. Este, sim, um cara porreta, raposa difícil de pegar. Em 2002, ele resolveu negociar propina, com o marqueteiro João Santana, para lubrificar sua campanha ao senado. Bagre ensaboado, Delcídio logo impôs condição: conversariam sim, mas pelados em uma sauna, o que de fato aconteceu. Tudo bem, mas é preciso reconhecer que segurança absoluta não existe. Penso que um nanomicrogravador, enfiado em oculto lugar, poderia muito bem ter gravado a conversa dos peladões. Não sei não, mas acho que passei do ponto, e fantasiei demais. Fui muito além do celular!

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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