Tribuna do Leitor

Quando chovia e ventava

Carlos R. Ticiano
| Tempo de leitura: 3 min

Como toda adolescente que mora em uma metrópole, Rafaela não via a hora de chegar suas férias escolares para passar algumas semanas no sítio de seus avós. Era uma oportunidade de sair daquela rotina diária, de escola de manhã e curso de inglês à tarde.

Quando viajava, a única coisa que preocupava Rafaela era a constante falta de energia elétrica, que ocorria com frequência naquela região isolada, onde ficava localizado o sítio de seus avós. Quando virava o tempo e trazia chuva intensa, acompanhada de ventania, raios e trovoadas, com certeza ficariam sem energia elétrica.

Quando isto acontecia, podia durar apenas algumas horas, como também alguns dias, devido à precariedade da estrada de terra, que não permitia acesso, para os devidos reparos na rede de transmissão. A solução encontrada era espalhar velas por cima dos principais móveis, além de ascender lampiões para poder se locomover dentro de casa.

Isolada de tudo e de todos, Rafaela via naquela escuridão noturna seu medo aumentar à medida que ouvia os ruídos que vinham da mata, através de sons estranhos e indecifráveis, provavelmente de bichos e pássaros. Além do barulho de galhos de árvores quebrando e da própria chuva batendo na janela. As sombras geradas pela chama das velas, refletidas nas paredes da casa, davam a sensação de imagens destorcidas, a ponto de ficar imaginando possíveis fantasmas. Claro que tudo isso vinha da imaginação fértil de uma adolescente, que nesses momentos de pavor procurava ficar sempre perto de sua avó Silmara. Para acalmá-la, costumava narrar fatos de sua infância, como o caso das vassouras. Quando apenas engatinhava, Rafaela tinha o costume de ficar de pé, se apoiando nos móveis. Ao chegar próximo da porta da cozinha e segurar-se nas vassouras dependuradas, começava a chorar de medo, sentindo as vassouras balançando.

Em meio às histórias, quando o tempo de chuva vinha em forma de temporal, Rafaela acompanhava sua avó em busca de folhas de ramos secos, guardados nos armários da cozinha. Diante de sua curiosidade, perguntava - Para que servem esses ramos secos? São ramos de palmeiras, benzidas no Domingo de Ramos. Vou queimá-los para virarem cinzas, fazer uma oração à Santa Bárbara e jogá-los ao vento pela fresta da porta, na intenção de acalmar o tempo. Tenha fé, dizia a avó Silmara para sua neta. Todas essas simpatias que realizava e as histórias que contava, não só a distraía, como também ficavam guardadas em sua memória de adolescente.

Trabalhando e fazendo faculdade, Rafaela raramente têm tempo de ir ao sítio. Atualmente, não tem mais medo dos apagões, que também acontecem com frequência na cidade, principalmente em dias de chuva intensa, acompanhada de ventanias. Como que buscando consolo, nessas horas liga para a avó Silmara, na ilusão de ainda tê-la do seu lado, como antigamente. Depois de acender várias velas, se dirige até a cozinha para preparar e assar um bolo de chocolate, enquanto tira um cafezinho à moda antiga, utilizando a chaleira para ferver a água, filtro de papel para filtrar o pó e o velho bule para servir o café. Quando se prepara para deitar, percebe a luz do abajur da sala acesa. Aliviada, exclama: A energia voltou! Como fazia no sítio com sua avó Silmara, era hora de sair apagando as velas acesas espalhadas pelo apartamento, deixando apenas as velas aromatizadas, que Rafaela não dispensa, pois, além de trazer bons fluidos, decoram o ambiente.

 

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