Tribuna do Leitor

Modesta crônica sobre a cor

José Misael Ferreira do Vale
| Tempo de leitura: 3 min

Aos cinco anos de idade, em 1943, fiquei impressionado pelo primeiro automóvel que passou pela comunidade onde morava. Era o "automóvel de praça" do carteiro que retirava a mala postal do trem vindo de São Paulo para a Alta Sorocabana para ser distribuída a correspondência para os moradores do município. Posso dizer que os demais carros que posteriormente passaram pela cidadela eram todos da "cor" preta o que hoje sabemos ser a "cor" determinada por H. Ford para o modelo T popular nos E.U.A. e nos países importadores do veículo norte-americano.

Somente mais tarde fiquei à frente de um Ford 29 "baratinha" pintada de duas cores. O encontro com o veículo foi importante para mim, jovem ainda, porque o "Fordinho" para duas pessoas e na traseira, com o "banco da sogra", ostentava as cores preta e amarela que o povo denominaria mais tarde, em 1950, de pintura "saia e blusa". Mas, diga-se de passagem, durantes anos a "cor" preta dos carros prevaleceu em aparecimento na cidadezinha onde eu morava. Só mais tarde quando os proprietários reformavam o Ford 1929, cores diferentes foram usadas, mas os para-lamas nunca deixaram de ser pretos. Falo de modo popular em "cor preta", mas a rigor, as cores são muitas a enumerar, exceto o branco e o preto.

Outras marcas de veículos, entre elas as da fábrica General Motors, deram início ao processo de embelezamento dos automóveis com variadas cores. E hoje há carros de variegadas cores conforme o gosto do freguês. Entendo que do começo do século XX até aos dias de hoje a indústria automobilística cresceu enormemente em quantidade e qualidade em todo o mundo. E as cores ganharam prestígio. Os carros populares e os de luxo espelham cores reluzentes, algo de "fazer inveja" a todos os entusiastas do automóvel. A cor é, atualmente, parte integrante da mercadoria automóvel que encanta o mundo dos negócios em estilo, potência, conforto e cores. Além do estilo, da mecânica e de outros fatores há ainda a questão da segurança e economia de combustível, sendo este aspecto o tema angustiante em tempos de dolarização do petróleo.

É algo instrutivo ver pela TV a cabo a competência dos pintores das agências norte-americanas de "customização". Mecânicos e pintores são mestres da recuperação e restauração de veículos antigos, modernos e contemporâneos. Mas, o que me faz lembrar, ao longo de oitenta e quatro anos, é a magia dos "possantes" com a qualidade da pintura envernizada a reluzir nos espaços iluminados. Parece-me óbvio que os humanos têm sensibilidade para a beleza das cores mercê da impressão variável refletida pelos objetos, captada pela retina e transmitida, via nervo óptico, à região occipital do córtex cerebral.

Vale a pena perceber como as cores fazem parte da cultura artística do mundo. Mas cabe dizer que o "vermelhão francês" não lembra o sangue dos bombardeados em guerras e mortos em acidentes fatais! Muito menos o "amarelo limão" não se confunde, misturado ao "alaranjado", com as labaredas de um incêndio criminoso. Ver o verde crescer significa ver o "verde cana", o "verde capim", o "verde esmeralda", o "verde escuro", o "verde alecrim" etc.. Ver o "azul celeste" é ver o céu de anil, céu de "brigadeiro", é ver o mar sem poluição na palheta do pintor paisagista ... Felizmente a natureza humana foi generosa a ponto de nos brindar com "mil cores" com o mundo do ipê amarelo, da cerejeira, da orquídea roxa e outras de muitas cores, o antúrio vermelho, o "copo de leite", a rosa vermelha e o botão amarelo, enfim, uma multidão enorme de cores à nossa disposição.

Digo sempre, ver as cores é viver para se encantar com girassóis! Van Gogh tinha sensibilidade para retratar as estrelas num céu azul! Munch usa a cor para reforçar o grito do homem solitário em cima da ponte deserta! Salve os pintores de todo mundo que representam o mundo concreto com pinceladas mágicas!

 

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