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Voz ativa na hora do parto

Elisa Martins
| Tempo de leitura: 3 min

Em momentos da vida de uma família como o nascimento de um filho, entender o que acontece e ser entendida faz toda diferença. Para um parto respeitoso e sem intercorrências, é fundamental. Mas nem sempre é assim, e a dificuldade é maior quando a mãe e o pai são surdos. Nos últimos anos, leis que asseguram a presença de intérpretes de libras nas salas de parto foram aprovadas em vários Estados e municípios brasileiros. Na prática, no entanto, a acessibilidade a esse e outros serviços de saúde ainda é limitada para as pessoas surdas.

Há dois anos, quando se preparavam para aumentar a família, a agente técnico-administrativa Yasmim Santana da Silva, 26 anos, e o auxiliar de documentação técnica Helliton Xavier, de 29, foram conhecer o hospital particular onde planejavam o parto, em São Paulo. E se preocuparam quando ouviram que a instituição não oferecia intérpretes de libras. No caso deles, pais de primeira viagem e surdos de nascença, a mediação linguística foi mais que necessidade: foi urgência de saúde, da mãe e do bebê.

"Foi um susto. Fomos a um ultrassom de rotina e disseram que o bebê não estava se desenvolvendo, que estava perdendo peso. Seria preciso tomar uma atitude rápida", lembra Helliton.

O parto teve que ser adiantado, e Yasmim foi direto para a cesárea. Sem intérpretes no hospital, o casal recorreu a uma colega de trabalho de Helliton, a advogada e tradutora de libras Luana Manini. "Luana intermediou desde o atendimento. Teve que falar com o convênio de saúde, explicar aos médicos todo o histórico clínico da Yasmim, que é diabética, responder como tinha sido o pré-natal, se ela tinha alergia, que remédios tomava. Fiquei muito nervoso. Imagina se não tivéssemos essa mediação linguística", questiona Hellinton.

Ao todo, foram mais de nove horas de trabalho de parto e de intermediação com plano de saúde, pediatra, anestesista, enfermeira, nutricionista, obstetra. "Uma hora Yasmim começou a passar mal e a perder os sinais vitais. Tinha relação com a diabete. O médico me pedia para mantê-la acordada. E eu perderia qualquer comunicação se ela fechasse os olhos, porque a libra é visual. Ao mesmo tempo, o marido via a movimentação e me perguntava o que estava acontecendo", lembra Luana.

O bebê nasceu saudável, mas ainda foi levado à UTI por conta do baixo peso, outro momento tenso em que a mediação de Luana pôde garantir que os pais entendessem e se tranquilizassem. "Sem a interpretação, eu teria ficado totalmente perdida em um momento tão especial", diz Yasmim.

Sem intérprete, tampouco teria sido possível conhecer dos próprios pais essa história. Uma história que, apesar do desfecho positivo, não é realidade para boa parte das pessoas surdas no País. Em São Paulo, um projeto de lei que assegura o direito a interpretação de libras no acompanhamento pré-natal e no parto aguarda votação. No Rio, um PL similar foi aprovado recentemente. Estados como Piauí e Acre também possuem leis do tipo.

Em alguns casos, como em Pernambuco, a contratação dos tradutores intérpretes fica por conta das gestantes, o que já impõe um obstáculo a quem não pode arcar com os custos.

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