Articulistas

Pai

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Todo dia ele segura a colher atravessada na mão feito um soldado, aperta firme para equilibrar a fatia do mamão papaia e levar a boca. E geme a satisfação para que eu diga: Pai! Não para censurá-lo ou mesmo avaliá-lo. Com cuidado, ele ainda saboreia a coalhada. Passa o guardanapo para limpar o excesso preso às iniciais do bigode. Os olhos, envoltos ao redor da cozinha, parecem redescobrir indefinidamente os objetos da casa. A fruteira que descansa sua utilidade sucessiva no canto da porta, o interfone ao lado do filtro com galão. Um pano de chão desalinhado desconhece a necessidade de sua imediata arrumação. Incomodado, ele, é lógico, o ajeita. Amar pai e mãe é bem isto: observar com olhos de entalhar, ainda que a memória, perecível ao tempo, traga lembranças reverdecidas.

O sofá, por beleza e encanto, acolhe as almofadas. O noticiário televisivo mostra pesquisa eleitoral e informações do centro da cidade ao qual ele não vai há tanto tempo, que considera nunca ter ido. Ele ainda vê o mundo pela tevê, e o futebol, pelo rádio. Por entender que vida nos talha o tempo todo com bocas concessivas, ele prefere ser útil ao mundo. Homem de sorriso fácil, pai também é exército de um homem só. Na fala de um pai, integridade, consideração dispensam sinônimos. Ele se arruma para receber os filhos e com os filhos, os netos. Pai, filho e netos se igualam na ingenuidade do momento.

Dia dos pais. Que diferença faz ser dia dos pais se amanhã ele terá de acordar, escovar os dentes, sentir dores musculares, olhar pro espelho, reconhecer a calvície, tomar os remédios, recepcionar os favores pontualmente ajoelhados, despachar esperanças antecipadas de tudo o que desmobiliza a consciência, banhar-se para ingerir as indigestas notícias do país e do mundo, ouvir os pessoas monumentarem bobagens, pegar o carro, enfrentar um trânsito desrespeitoso, bater com o pneu num buraco, aguentar a rebeldia das motos acelerando meio-fio dos carros. Viro o corpo dando as costas a tudo isso. Dormir talvez me seja a única liberdade possível.

É dia dos pais, mas que importa? As roupas permanecem no varal, a pá encostada na vassoura, a metafísica silenciosa do balde, a geometria do varal. Da área, a luz dos postes desenha círculos amarelos iluminando a vida ronronar abafado sobre os telhados. A rua silencia porque a noite avança. Tudo é pretérito e, ao mesmo tempo, iminente. Cansado, ele ressona, ronca. Durante a infância, a sobremesa, dos domingos de tarde, se dava na sombra com faca e laranjas. Na alegria dilatada das férias, bois e cavalos lambiam o prato de sua juventude. Durante toda a vida, ele nunca dormiu sem dobrar os joelhos para Nossa Senhora Aparecida.

Havia um elo tácito de que, independentemente do que ocorresse ou que horas fossem, ao se recolher, recorria-se à Nossa Senhora, e desde pequeno os filhos acompanhavam sua devoção. Com o exemplo, o aprendizado. Não tê-lo como referência, fustigava qualquer raciocínio sensato. Mas é dia dele e uma ansiedade, sim, uma agitação estéril, afinal é disso que são feitos os pensamentos, tosse na pauta do dia. Devo, ou melhor, deveria ter abraçado mais meu pai, ter olhado em seus olhos e agradecer-lhe por ter acrescentado vida em meus dias?

O segundo domingo insiste em ser dia dos pais. Acordo. A luz do abajur esclarece a realidade, algo da ordem do inesperado, uma constatação: algo mais se desvendava e não notei porque algumas coisas requerem experiência para serem vistas e vividas. E isso exige dos filhos compreensão, do início ao fim, para descobrirmos dos verbos, o verbo: ser, estar e permanecer pai.

 O autor é professor de Língua Portuguesa.

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