Hoje, estava na fila do mercado quando vi um cliente dizer: "logo, queijo vai virar artigo de luxo". A moça do caixa corrigiu: "Logo, comer vai ser artigo de luxo". Quando chegou na minha vez, ela disse: "Está terrível... os preços todos estão absurdos"... e aí completou: "mas ontem gostei... Acharam que o Bolsonaro não ia na Globo, mas ele foi... Esse presidente é louco!... Adorei... ele acabou com o Bonner!"
Percebi que, para ela, a altíssima inflação não era consequência de um governo incompetente e que a desigualdade social era algo natural como o ar que respiramos... Aliás, enquanto falava, ela sequer estava pensando na situação do país ou em política... Entre a primeira frase e a última não havia nenhum raciocínio, nenhuma lógica... Para ela, a escolha estava feita... Uma escolha baseada em uma alegoria folclórica - uma figura mitológica, um Bumba Meu Boi... Em sua ignorância cega, tudo se resumia em escolher entre o boi azul e o boi vermelho...
E para evitar me indispor, com argumentos para quem seria incapaz de entendê-los, respondi apenas: - Eu espero, sinceramente, que nosso próximo presidente não seja um louco... Prefiro que seja alguém lúcido... Alguém que consiga nos tirar dessa situação terrível de que você falou.
Bovinamente, ela sorriu. Certamente sequer ouviu ou entendeu o conteúdo das entrelinhas... Em nosso Parintins cotidiano, até a desgraça virou festa.... Não há mais espaço para o pensamento crítico.... Tudo se resume a ficar na arquibancada do bumbódromo e torcer freneticamente pelo Caprichoso ou pelo Garantido...
O autor é colaborador de Opinião.