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Qual é a música?

Alexandre Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

N a década de oitenta, o homem do Baú comandava um disputado programa dominical. Sob a desafiadora pergunta: "Qual é a música?", artistas duelavam seus conhecimentos musicais. Ao som do maestro, no palco e em casa, ouvidos atentos acompanhavam, no canto inferior da tevê, a mão dedilhar notas. Em nossa vida, determinados fatos em muito se assemelham a uma seleção musical. Nesse repertório: avanços, retrocessos, reflexões que nos justifiquem enquanto seres humanos. Experiências de uma engenharia incontestável ao nosso curriculum vitae, ou seja, ao nosso certificado de vida.

Por esperanças acumuladas, passado o natal, o janeiro chuvoso, uma vez mais, descortina o ano com enchentes e deslizamentos. No morro, a vida escorre à margem. Olhos embotados de tragédia e lágrima. É o morador da eufemística comunidade soterrado, é alguém pobre, é óbvio, carregando sacola flácida. Ano que vem teremos mais. Ano próximo a notícia se renova em angústia comprida. Fevereiro tem carnaval. Momento pródigo em magias. Simples trabalhadores vivem a ilusão de serem príncipes, reis e barões. Tem problema? Tem sim, senhor, mas tem samba, cerveja, bares lotados, blocos afinando a alegria despretensiosa dos surdos e tamborins. Qual é a música? Ah, deixa pra lá. Tem fome? Tem sim, senhor, mas tem gente churrascando, bebemorando o desfile da avenida. Cai fora, voz desfestejada! Março contempla o dia internacional da mulher. Avançaram? Conquistaram espaços? Lembre-se de que feminino permanece como substantivo masculino. Música? Ouviria Gil: "Ser o verão o apogeu da primavera."

Em abril - não minta pra mim - de primeira colocaríamos na segunda urgências de vida. Música? Cantaríamos Caetano: "Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final." Maio, tem dia do trabalho. O desemprego é um andarilho de olhos arregalados. É uma multidão de pasta, papel e currículo esperando na fila. É muita gente com espera exclamada em pé sem rima esperando que a resposta venha de cima. É estatística roendo miséria de vida. Tem abolição da escravatura? Tem nariz preto e pobre morrendo sem ter como respirar com gás no porta-malas da polícia. Tem carne, tem navalha.

Junho. Dia dos namorados sugeriria Fernando Mendes: "Você não me ensinou a te esquecer". Aos solitários que ainda endireitam o quadro na parede, convictos de estarem colocando o dia em seu devido lugar. Julho. Aos que vivem os dias com café de açúcar ruim, saibam que a vida exige de nós algo além de cabides de roupas. Aos revolucionários, amantes da arte, ao professor de Literatura revoltado por um vida cuspida de obedientes metonímias. Ao poeta, sabendo que nem só de pão vive o homem, foi lá e comprou manteiga. Agosto tem arrepeios da história. Cachorro louco, atentado contra Juscelino, suicídio do Getúlio, renúncia do Jânio, bum! Hiroshima Nagasaqui. É mês com rosto de grandeza. Ano em que tanques e tropas russas interceptaram militares ucranianos. Mochilas nas costas abandonaram suas casas em busca de fronteiras. O pai, convocado para a resistência armada, chorando se despede do filho. Enquanto isso, lama soterra familiares numa vergonha chamada Petrópolis. Qual é a música? Indicaria Gessinger: "Há um guarda em cada esquina, esperando o sinal pra transformar o banho de piscina numa batalha naval." Tem remédio? A vida faz valer o que remediado está.

Depois de tanta porrada na telinha, o apresentador me deseja boa-noite. Setembro, outubro, qual é a música? Cantaria Milton: "Já que sonhos não envelhecem, que quem traz na pele esta marca possui a estranha mania de ter fé na vida." Em ano eleitoral, de salivação política, o futuro é obeso. Proporia Cazuza, exigindo que o Brasil mostre sua cara. Na véspera da eleição, poderia, por fim, perguntar quem é que paga pra gente ficar assim.

 O autor é professor de Língua Portuguesa.

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