Tribuna do Leitor

Savi, eis algumas recordações...

José Roberto Segalla
| Tempo de leitura: 4 min

Prezado Cesar Savi, saúde e disposição são meus desejos para você. Apesar de você ser um pouquinho mais velho do que eu, tem uma memória privilegiada, dom com o qual não fui contemplado. Me lembro de fatos e de coisas, mas não guardo na memória nomes, endereços, preços etc. Assim, na tentativa de colaborar com você e valer-me da sua memória, ouso enviar-lhe algumas de minhas recordações para dar a você a chance de melhor trata-las.

Na rua Primeiro de Agosto, em frente ao Fuentes, ficava na esquina a loja (se bem me lembro) Só Fogões, de propriedade de Anésio Dias Soares ( sei porque era amigo do filho dele). A esquerda dela, ainda na rua Primeiro, ficava a Cinelândia, uma grande revistaria. Entre as duas ficava uma sorveteria. Nessa sorveteria chupava-se picolé de garapa, coisa que nunca mais ví nem soube haver, O proprietário mudou-se para São Paulo, onde montou uma sorveteria em uma galeria do centro, e lá continuou fazendo o tal picolé de garapa (tomei lá ).

Na revistaria Cinelândia assisti uma cena inusitada. A pianista D. Amélia (que tocava na TV Bauru canal 2 e que está a merecer, por parte de quem tem memória ou dados, uma homenagem pois formou muitas gerações de pianistas) pegou, para examinar, uma daquelas canecas de cerâmica enormes, enfeitadas, com tampa, muito utilizadas em festas do chopp alemão, mas foi infeliz pois escolheu justamente a caneca que dava equilíbrio para a prateleira onde mais de uma dezena de canecas do mesmo tipo eram exibidas. A tábua da prateleira inclinou-se e as canecas passaram a escorregar, uma a uma, indo para o chão. Como eu era menino, tratei de escafeder-se dali para não vir a ser acusado e, portanto, não sei que fim teve aquilo. Uma coisa que desapareceu com o tempo e que só os antigos hão de recordar era a presença, com alguma frequência, de faquires em nossa cidade. Chegavam, alugavam um espaço vazio nas ruas principais e instalavam uma cama de pregos, coberta com uma redoma de vidro, e passavam a conviver ali, por dias e dias, sem (diziam) se alimentar, Em diversos casos, cobras eram colocadas vivas e soltas dentro da redoma. Nunca mais se viu isso. Outra coisa muito frequente era o aparecimento de ciclistas que se exibiam principalmente na praça Ruy Barbosa, pedalando por dias e dias seguidos (dia e noite diga-se) sem descerem da bicicleta. Todos esses "artistas" viviam ou de ingressos (casos dos faquires) ou de doações (caso dos ciclistas que se exibiam a céu aberto). Gostaria também, Cesar, que você pudesse, com a sua memória qualificada, recordar-se da Casa Zats (rua Batista de Carvalho), Casa Kaplan (idem) , Casa Sol (também), Agência Rodrigues, Relojoaria do Pachoal, Casa Esporte (chegou a ser comprada pelo Milton Luz Teixeira da Silva), que se não me engano foi também do Ivan Perroca.

O ano certamente foi o de 1968, mas a data não me recordo. Havia ocorrido um episódio no Rio de Janeiro no qual a policia invadiu um reduto estudantil e um dos "alunos", (suponho ) foi morto. Nós éramos estudantes do primeiro e segundo anos da recém criada Faculdade de Engenharia da FEB e resolvemos fazer um protesto contra o ocorrido. Saímos da faculdade (altos da Vila Falcão) em passeata, cantando "mais pão, menos canhão" e seguimos em marcha até a praça Ruy Barbosa, sendo seguidos, o tempo todo, por duas fileiras de soldados armados, ladeando os estudantes que caminhavam pela rua. Na praça Ruy Barbosa, o Tidei (estudante de engenharia da primeira turma) subiu na mureta da igreja e discursou contra a "ditadura" militar. Para a grande maioria de nós, aquilo foi uma grande farra. Para alguns (poucos), mais politizados, aquilo foi um ato.

Nós, estudantes de engenharia de então, criávamos greves do nada. Me recordo de uma vez em que a refeição servida aos estudantes de engenharia de São Carlos, da USP, aumentou de 1,20 cruzeiros para 1,50 cruzeiros (aqui em Bauru a mesma refeição custava 8,0 cruzeiros). Foi o quanto bastou para entrarmos em greve aqui em Bauru, "em solidariedade aos nossos colegas de São Carlos, espoliados pela direção". Os números que citei aqui são referenciais aproximados, e não exatos.

Cesar, você se recorda de quando eu, ainda professor de engenharia e fazendo doutorado em São Carlos, resolvi "inventar" uma raquete que fosse menor que as convencionais mas que pudessem dar um melhor controle da bola de tênis? Você chegou a fazer uma reportagem sobre isso. O ingresso no Ministério Público me fez abandonar o projeto mas hoje, quando vejo as raquetes de beach tênis, penso que se eu tivesse insistido teria chegado lá. Forte abraço.

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