Política

Após fiasco eleitoral, PSDB precisa se reinventar, defende militância tucana

Tânia Morbi
| Tempo de leitura: 4 min

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) é considerado pelos analistas políticos como um dos maiores derrotados nas eleições de 2022. Mas seu enfraquecimento teve início muito antes do primeiro turno, que selou a perda de um dos seus principais capitais políticos: o governo do Estado de São Paulo, administrado pela legenda por 28 anos. Essa interrupção no poder vem sendo vista como um possível golpe mortal contra a sigla. Para lideranças do partido em Bauru, o caminho para restabelecer o ninho tucano passa pela união com forças, embora não seja uma travessia fácil.

Para o presidente do Legislativo bauruense, que se licenciou a fim de dedicar-se à candidatura a deputado estadual, Markinho Souza (PSDB), a passagem do ex-governador João Doria pela sigla afetou suas estruturas. Sua forma de fazer política afastou lideranças históricas, na opinião de Markinho. "Ele acabou impondo a sua vontade perante muitos tucanos que precisariam ser respeitados. Doria e seu grupo sempre se impuseram por meio das prévias, e isso afastou muitos do partido, como Geraldo Alckmin", comenta.

Mas, assim mesmo, o presidente se diz resiliente quanto a permanecer no partido e acredita tratar-se de uma má fase, que pode passar. "Eu sigo tentando ajudar a reconstruir a história do nosso partido, que merece todo respeito, por ter construído e contribuído muito para o nosso País. Não podemos virar as costas. Estarei sempre à disposição para somar por sua reconstrução e fortalecimento", garante.

DESDE A FUNDAÇÃO

O advogado Gilson Rodrigues, recém-empossado como segundo suplente na vaga de Markinho, e que é filiado ao partido desde sua fundação em Bauru, também credita a Doria o esfacelamento do partido. "Começa por não ter conseguido lançar um candidato à Presidência da República. A cúpula se dividiu, o Doria ganhou as prévias. Mas, no fim, não conseguiu ter apoio da direção nacional. Aí começou a degringolar. Hoje o partido está muito dividido", avalia. O apoio do governador Rodrigo Garcia à reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) e a Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o segundo turno no Estado contribuiu ainda mais para a cisão, na opinião do vereador interino.

Gilson afirma que pretende continuar no partido, mas concorda que a reorganização, mesmo em nível municipal, é um caminho difícil. "Não sei quem poderia liderar este processo. Quando tínhamos o (deputado) Pedro Tobias, tínhamos referência. Agora não temos deputado estadual e, se não conseguimos reorganizar o partido tendo o Governo do Estado, como vai ser sem qualquer liderança regional ou estadual?", indagou.

VAI PASSAR

Antes de Gilson, quem ocupou a vaga do presidente licenciado no Legislativo foi a advogada Thaís Viotto, para quem, assim como Markinho Souza, o momento ruim do partido é visto como uma névoa, que vai passar, desde que feita uma ampla reflexão sobre sua atual situação. "É preciso entender o que aconteceu. Por que será que, mesmo sendo o Estado de São Paulo o mais notável na economia, tendo grandes empresas, com destaque principalmente em segurança e educação, menor índice de analfabetismo, dirigido há 28 anos pelo PSDB, não teve o partido da social democracia bom desempenho?", questiona.

Na opinião dela, é preciso ponderar se o resultado reflete erro nos nomes escolhidos ou apenas insatisfação da população. "Acredito que vivemos um momento de extremos e o PSDB, por não ser nem esquerda nem direita, ficou de fora da disputa", avaliou.

GERACIONAL

O fato de a legenda não ter conseguido formar novas lideranças que ocupassem o espaço deixado por nomes tradicionais, como José Serra, também contribuiu para o enfraquecimento da sigla, ao longo dos anos, na opinião do empresário Caio Coube, tradicional militante e dirigente do PSDB em Bauru.

Ele pontua entre as situações que levaram o grupo político ao seu encolhimento o fato de o partido não ter tido candidato próprio à Presidência da República, após a atuação de João Doria, o que acabou levando o PSDB a apoiar Simone Tebet (MDB), terceira colocada no primeiro turno. "Tem esta questão geracional. O Doria teve um estilo de liderança empresarial que não se adequa ao perfil social democrata. Então, a grande esperança é o Eduardo Leite. Mas ainda é pouco, porque é um nome apenas", avalia.

Mas Coube pondera ainda a polarização política, consequência de uma guinada à direita pela população como fator importante na queda do PSDB. "A sociedade, que t inha o PSDB como antagonista ao PT, encontrou outra liderança totalmente diferente do PSDB, que é um partido civilizado, moderado, que pratica o diálogo e respeita o adversário. Esta (nova) liderança tem perfil truculento, autoritário e agressivo, que é o (presidente) Jair Bolsonaro", opina.

Caio Coube entende que para fortalecer não apenas o PSDB, mas todo o grupo formado por idealistas da social democracia como forma de governo, é preciso manter a militância. "A necessidade do partido se reinventar se impõe, como a possibilidade de fusão com o Cidadania. Mas precisa buscar outros partidos, como o lado arejado do MDB para tentar fortalecer o campo do centro, que conversa com a esquerda e com a direita e tem propostas para o País. Para que a política volte a ser terreno de embate de ideias, com respeito de ambos os lados", comenta.

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