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Dicas de especialistas

Constança Tatsch
| Tempo de leitura: 3 min

Vamos imaginar situações cotidianas. A criança tenta calçar os sapatos sozinha, troca o pé, erra, demora. O pai, com pressa, faz ele mesmo para não se atrasarem. Ou o menino começa a comer sozinho. Diante da sujeira, a mãe dá na colher. Ou a menina escolhe uma roupa esquisita. Os pais estranham e fazem com que vista outra coisa.

Isso acontece na maioria das famílias, e aconteceu ainda mais na pandemia, quando as crianças estavam cercadas pelos cuidadores de forma muito mais constante. O que poucos percebem é o prejuízo para a conquista da independência.

Especialistas dizem que é hora de recuperar o tempo perdido e auxiliar as crianças a ganharem autonomia, com impacto direto na saúde mental e no desenvolvimento neurológica. "A pandemia impactou muito o desenvolvimento da independência. A escola promovia isso: a criança carregava a lancheirinha, abria o suco, colocava o canudinho sozinha, buscava o estojo, ajudava o professor. Em casa, os cuidadores começaram a fazer tudo por ela", explica a neuropsicopedagoga Renata Aguilar.

A falta de interação com outras crianças foi determinante. "Nosso cérebro tem um neurônio descoberto recentemente, o neurônio espelho: eu aprendo vendo o outro. A criança pequena ao ver os amiguinhos indo ao banheiro, usando o vaso, lavando a mãozinha, entende que aquele é um modelo para poder seguir. O cuidador, seja pai ou mãe, é um modelo diferente, porque faz tudo muito rápido. Se o amiguinho está colocando o sapato, ele tem as mesmas dificuldades, e uma criança ajuda a outra."

Segundo a neuropsicopedagoga, quando os cuidadores fazem tudo pela criança, ela se acomoda. Tentar, demorar, errar, tentar de novo até acertar é um processo importante.

"Isso afeta também a autoestima. A independência depende do suporte do adulto. Dar liberdade para fazer, errar, acertar... O erro precisa acontecer. Conseguir fazer sozinho é uma conquista. As crianças hoje não têm autonomia e não desenvolvem habilidades para lidar com a frustração. Os pais fazem, parece que ela não é capaz. Elas são capazes, respeitando a faixa etária - afirma Aguilar.

De acordo com o psicólogo, mestre em educação e palestrante Marcos Meier, a neurociência tem mostrado que, quando se desenvolve autonomia numa criança, ela fica mais inteligente, porque novas conexões cerebrais são feitas.

"Isso acontece quando ela resolve problemas, supera dificuldades ou conquista desafios, chaves da autonomia. Duas coisas que não se podem esquecer: liberdade de tomar a decisão e responsabilidade de assumir a consequência.

Meier exemplifica: "Posso dar autonomia para usar uma roupa engraçada para ir na avó? Sim. A consequência vai ser, no máximo, uma risada amorosa. Posso dar autonomia para botar uma roupa de calor num dia frio? Não, porque a consequência pode ser ruim para a saúde dela. Ou um filho adolescente de 17 anos, muito responsável, pede o carro emprestado para ir a uma festa. Tem a liberdade? Não, porque a lei não permite e tampouco pode assumir consequências. Mesma situação com um filho de 20 anos irresponsável, crianção. A lei permite, mas ele tem responsabilidade? Não, então não vou deixar. Liberdade e responsabilidade têm que andar juntas. "A autonomia é necessidade emocional básica. Se der pouca, acaba sufocando. O oposto são pais negligentes, que dão autonomia em excesso e ela não se sente protegida, acolhida.

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