Em A Lista de Schindler, filme de Steven Spielberg lançado em 1993 e baseado em uma história real, um empresário alemão transforma listas em instrumentos de salvação. Durante a Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler, membro do Partido Nazista, enriquece explorando o trabalho de judeus em sua fábrica, na Polônia ocupada.
Aos poucos, porém, passa a usar sua influência e seu dinheiro para proteger trabalhadores ameaçados pelo extermínio. Com a ajuda de seu contador judeu, Itzhak Stern, contribui para salvar cerca de 1.200 pessoas. As listas associadas a essa história, preparadas com a participação de diferentes pessoas, acabaram simbolizando a diferença entre condenar e salvar vidas.
A História também guarda episódios em que listas serviram à perseguição. No livro Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt discute, entre outros temas, a atuação de lideranças e conselhos judaicos submetidos à pressão nazista durante o Holocausto. Esse capítulo doloroso não pode ser reduzido à ideia de que as vítimas simplesmente entregavam umas às outras.
A perseguição foi organizada pelo regime nazista, que confiscou bens, restringiu direitos e promoveu violências sistemáticas, entre elas, marcar com tinta vermelha as lojas de judeus e impedir que pessoas comprassem nelas. Na Noite dos Cristais, em novembro de 1938, sinagogas foram incendiadas, lojas judaicas foram saqueadas e milhares de judeus foram presos.
Décadas depois, em pleno século 21, as listas voltaram a circular, desta vez no Brasil e também em cidades como Araçatuba. Após a eleição presidencial, relações de comerciantes, profissionais liberais e empresas supostamente favoráveis ao candidato vencedor passaram a ser compartilhadas nas redes sociais. A recomendação é boicotar esses estabelecimentos, como se deixar de comprar pão, tomar café ou almoçar fora fosse uma forma legítima de contestar o resultado das urnas.
O inconformismo eleitoral é compreensível. Em uma democracia, porém, perder faz parte do jogo. O que não cabe é tentar expulsar o adversário do campo porque o placar desagradou. Mais grave ainda é transformar divergências em ameaças, perseguições ou demissões. O Ministério Público do Trabalho registrou 3.396 denúncias de assédio eleitoral em 2026 até 29 de outubro, em meio a relatos de pressão e retaliação política. A legislação brasileira proíbe práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na manutenção do vínculo trabalhista.
Os autores dessas listas talvez rejeitem a comparação com os fascistas e os nazistas. Ainda assim, atitudes autoritárias não deixam de ser autoritárias porque recebem outro nome. A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não serve de licença para ameaçar, difamar ou perseguir. Dependendo das circunstâncias, essas condutas podem gerar responsabilização civil, trabalhista ou criminal.
Se a ideia é fazer listas, que sejam listas do bem: de quem ajuda, acolhe, respeita e constrói pontes. Não importa em quem o vizinho votou; importa como ele trata os outros. O boicote político, além de covarde, pode atingir quem nada tem a ver com a disputa. O dono do restaurante até suporta um mês de movimento fraco. Mas e a garçonete, a cozinheira, o entregador?
Muitos dependem daquele salário para pagar as contas e alimentar os filhos. E talvez tenham votado exatamente como quem compartilhou a lista. No fim, a birra de alguns pode virar o prejuízo de muitos. É como o menino mimado que, derrotado na partida, pega a bola e vai embora. Ele não quer melhorar o jogo nem preparar a próxima disputa. Quer apenas impedir que os outros continuem brincando.
A democracia merece coisa melhor — e a cidade também.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA internacional em gestão executiva
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